Capítulo 61 Estudo observacional


61.1 Características


61.1.1 Quais são as características de estudos observacionais?


61.2 Emulação de ensaio-alvo


61.2.1 O que é uma emulação de ensaio-alvo?

  • Emulação de ensaio-alvo (Target Trial Emulation) procura reproduzir, dentro de uma base de dados observacional, a estrutura de um ensaio clínico randomizado hipotético capaz de responder à pergunta científica de interesse.499

  • O ensaio clínico hipotético que serviria como padrão ideal para responder à pergunta é denominado ensaio-alvo (target trial).499

  • A abordagem utiliza dados observacionais já existentes, como registros clínicos, bases administrativas, bancos de seguros de saúde ou registros nacionais, para reproduzir o protocolo desse ensaio-alvo da forma mais fiel possível.499

  • O objetivo da emulação de ensaio-alvo é reduzir vieses comuns em análises observacionais e aproximar a interpretação dos resultados daquela obtida em ensaios clínicos aleatorizados.499


61.2.2 Por que utilizar Target Trial Emulation?

  • Muitas perguntas clínicas não podem ser respondidas por ensaios clínicos aleatorizados devido a limitações éticas, financeiras ou logísticas.499

  • A emulação de ensaio-alvo permite investigar efeitos de exposições, tratamentos ou políticas de saúde utilizando dados já disponíveis na prática clínica.499

  • A explicitação prévia do protocolo do ensaio-alvo melhora a transparência metodológica e reduz ambiguidades na definição da pergunta causal.499

  • A abordagem favorece maior clareza sobre quais pacientes, intervenções, desfechos e períodos de seguimento estão sendo efetivamente estudados.499


61.2.3 Quais elementos devem ser definidos em uma emulação de ensaio-alvo?

  • Critérios de elegibilidade dos participantes.499

  • Estratégias de intervenção comparadas.499

  • Forma de alocação aos grupos.499

  • Definição do tempo zero.499

  • Duração e regras de seguimento.499

  • Desfechos primários e secundários.499

  • Plano de análise estatística.499


61.2.4 O que é o tempo zero?

  • O tempo zero corresponde ao momento em que a elegibilidade é confirmada, a exposição ou intervenção é definida e o acompanhamento dos participantes se inicia.499

  • A correta definição do tempo zero é fundamental para evitar vieses relacionados à temporalidade da exposição e do desfecho.499

  • Em emulação de ensaio-alvo, o tempo zero deve ser equivalente ao que seria utilizado no ensaio clínico que está sendo emulado.499

  • O tempo zero merece atenção especial, pois corresponde simultaneamente ao momento de elegibilidade, definição da exposição e início do seguimento.499


61.2.5 O que é viés do usuário prevalente?

  • O viés do usuário prevalente ocorre quando participantes já em tratamento são incluídos no estudo após o início da exposição.499

  • Nessa situação, indivíduos suscetíveis a eventos adversos podem ter abandonado o tratamento anteriormente, permanecendo apenas aqueles que o toleraram bem.499

  • Como consequência, o risco associado ao tratamento pode ser subestimado.499

  • A emulação de ensaio-alvo procura evitar esse viés ao priorizar usuários incidentes, isto é, participantes observados desde o início da exposição.499


61.2.6 O que é viés de tempo imortal?

  • O viés de tempo imortal ocorre quando existe um período durante o qual o participante não poderia apresentar o desfecho e ainda assim permanecer elegível para determinado grupo de exposição.499

  • Esse período artificialmente protegido pode produzir estimativas enviesadas do efeito da intervenção.499

  • A sincronização adequada do tempo zero entre os grupos comparados constitui uma das principais estratégias para evitar esse viés.499


61.2.7 Como a aleatorização é emulada em ensaio-alvo?

  • Em emulação de ensaio-alvo, essa aleatorização não existe, pois a exposição já ocorreu na prática clínica.499

  • Para aproximar o equilíbrio entre os grupos, são utilizadas técnicas de ajuste para confundidores medidos, incluindo modelos multivariados, escores de propensão e ponderação por probabilidade inversa.499

  • O ajuste reduz, mas não elimina completamente, o risco de confundimento.499


61.2.8 Quais são as vantagens da emulação de ensaio-alvo?

  • Redução de vieses comuns em estudos observacionais.499

  • Maior clareza na definição da pergunta causal.499

  • Melhor alinhamento entre delineamento, análise e interpretação dos resultados.499

  • Possibilidade de investigar questões inviáveis em ensaios clínicos aleatorizados.499

  • Utilização de grandes bases de dados do mundo real.499


61.2.9 Quais são as limitações da emulação de ensaio-alvo?

  • A aleatorização não é realmente realizada.499

  • Confundidores não mensurados ou desconhecidos podem influenciar os resultados.499

  • A qualidade da inferência depende da qualidade dos dados observacionais disponíveis.499

  • Informações sobre exposição, desfechos e covariáveis podem apresentar erros ou imprecisões.499

  • Viés residual pode permanecer mesmo após ajustes estatísticos.499

  • A emulação de ensaio-alvo não substitui ensaios clínicos aleatorizados quando estes são viáveis.499


61.2.10 Quando utilizar a emulação de ensaio-alvo?

  • Quando existe uma pergunta causal claramente definida.499

  • Quando um ensaio clínico randomizado é inviável ou antiético.499

  • Quando há disponibilidade de dados observacionais longitudinais de qualidade.499

  • Quando é possível especificar previamente os componentes do ensaio-alvo que se deseja emular.499


61.2.11 A emulação de ensaio-alvo permite inferência causal?

  • A emulação melhora substancialmente a validade de análises observacionais quando comparada a abordagens tradicionais.499

  • Entretanto, a ausência de aleatorização verdadeira impede a eliminação completa do confundimento.499

  • Os resultados de emulações devem ser interpretados como evidências observacionais robustas que fortalecem a inferência causal, mas não possuem o mesmo grau de proteção contra confundimento oferecido pelos ensaios clínicos aleatorizados.499


61.3 Diretrizes para redação


61.3.1 Quais são as diretrizes para redação de estudos observacionais?

  • Visite a rede Enhancing the QUAlity and Transparency Of health Research (EQUATOR Network) para encontrar diretrizes específicas.

  • The Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) Statement: guidelines for reporting observational studies.500



Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

499.
Andrade C. Target Trial Emulation. The Journal of Clinical Psychiatry. 2025;86(1). doi:10.4088/jcp.25f15796
500.
Elm E von, Altman DG, Egger M, Pocock SJ, Gøtzsche PC, Vandenbroucke JP. The Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) Statement: Guidelines for Reporting Observational Studies. Annals of Internal Medicine. 2007;147(8):573. doi:10.7326/0003-4819-147-8-200710160-00010