Capítulo 21 Gráficos
21.1 Visualização efetiva de dados
21.1.1 Por que começar pela mensagem antes do gráfico?
- A figura deve responder a uma pergunta clara (comparação? tendência? composição?) e isso orienta a escolha do tipo de gráfico, dados e anotações. Esboce a mensagem e a pergunta antes de abrir o software.242
21.1.2 Como escolher a geometria e “mostrar os dados”?
- Prefira geometrias que revelem distribuição/variabilidade (pontos, boxplots, violinos) em vez de médias sozinhas. Sempre que possível, exiba os dados brutos (pontos com jitter) junto da estatística-resumo.242
Figura 21.1: Gráfico que mostra os dados brutos junto com um resumo estatístico (média e dispersão).
21.2 Gráficos
21.2.1 O que são gráficos?
- Gráficos são utilizados para apresentar dados (geralmente em grande quantidade) de modo mais intuitivo e fácil de compreender.243
21.2.2 O que torna um bom gráfico tão poderoso?
- “Não há ferramenta estatística tão poderosa quanto um gráfico bem escolhido”: gráficos ajudam a explorar dados, comunicar resultados e suportar decisões de forma clara e rápida.244
21.2.3 Que elementos incluir em gráficos?
- Título, eixos horizontal e vertical com respectivas unidades, escalas em intervalos representativos das variáveis, legenda com símbolos, síntese descritiva dos valores e respectiva margem de erro, conforme necessário para adequada interpretação.243
21.2.4 Para que servem as barras de erro em gráficos?
Barras de erro ajudam ao autor a apresentar as informações que descrevem os dados (por exemplo, em uma análise descritiva) ou sobre as inferências ou conclusões tomadas a partir de dados.223,245
Barras de erro mais longas representam mais imprecisão (maiores erros), enquanto barras mais curtas representam mais precisão na estimativa.245
Barras de erro descritivas geralmente apresentam a amplitude (mínimo-máximo) ou desvio-padrão.245
Barras de erro inferenciais geralmente apresentam o erro-padrão ou intervalo de confiança no nível de significância \(\alpha\) pré-estabelecido.223,245
Barras de erro com desvio-padrão são úteis para descrever a variabilidade dos dados, enquanto as barras de erro com erro padrão da média são úteis para descrever a precisão do parâmetro estimado (média) e sua relação com o tamanho da amostra.223
Barras de erro com intervalo de confiança são úteis para fornecer uma estimativa da incerteza da estimativa do parâmetro populacional.223
O comprimento das barras de erro sugere graficamente a imprecisão dos dados do estudo, uma vez que o valor verdadeiro da população pode estar em qualquer nível do intervalo da barra.245
De modo contraintuitivo, um espaço entre as barras não garante significância, nem a sobreposição a descarta—depende do tipo de barra.223
Para amostras pequenas é preferível apresentar os dados brutos, uma vez que as barras de erro não serão muito informativas.223
Figura 21.2: Exemplos de gráficos com barras de erro e dados brutos.
Figura 21.3: Exemplos de gráficos com barras de erro e dados brutos em diferentes cenários.
Os pacotes ggplot2214, plotly246 e corrplot247 fornecem diversas funções para construção de gráficos tais como ggplot, plot_ly e corrplot respectivamente.
21.2.5 Quais são os principais obstáculos para bons gráficos?
- Dificuldade técnica, negligência no ensino tradicional e o foco em “beleza” sem clareza podem levar a gráficos ruins, mesmo quando bem intencionados.244
21.3 Tipos de gráficos
21.3.1 Quais são os tipos de gráficos para variáveis categóricas?
- Gráfico de barras: Mais usado para comparar frequências absolutas ou relativas entre categorias.REF?
Figura 21.4: Gráfico de barras simples representando frequências por categoria.
- Gráfico de barras empilhadas: Útil para comparar proporções entre grupos em mais de uma variável categórica.REF?
Figura 21.5: Gráfico de barras empilhadas representando frequências por categoria.
Figura 21.6: Gráficos de barras represetando médias, barras de erro e dados individuais.
21.3.2 Quais são os tipos de gráficos para variáveis numéricas?
- Histograma: Distribuição de frequência de uma variável contínua. Mostra a forma da distribuição (simétrica, assimétrica, bimodal).REF?
Figura 21.7: Histograma.
- Gráfico de densidade: Similar ao histograma, mas mais suave. Útil para avaliar a distribuição.REF?
Figura 21.8: Gráfico de densidade
- Diagrama de caixa (boxplot): Resume mediana, quartis e valores extremos. Excelente para comparar grupos.REF?
Figura 21.9: Boxplot por grupo.
- Gráfico de violino: Combina boxplot e densidade, mostrando a distribuição da variável. Útil para comparar grupos.REF?
Figura 21.10: Violin plot por grupo.
- Gráfico de pontos (dot plot): Mostra cada valor individualmente, útil para pequenas amostras e para visualizar a distribuição.REF?
Figura 21.11: Gráfico de pontos.
21.3.3 Quais são os tipos de gráficos para relações entre variáveis?
- Gráfico de dispersão (scatter plot): Mostra a relação entre duas variáveis quantitativas. Ideal para investigar correlações.REF?
Figura 21.12: Gráfico de dispersão representando a relação entre duas variáveis.
- Gráfico de bolhas (bubble chart): Expande o gráfico de dispersão adicionando uma terceira variável (tamanho da bolha).REF?
Figura 21.13: Gráfico de bolhas representando a relação entre três variáveis.
- Gráfico Sankey: Visualiza fluxos entre categorias em diferentes etapas ou grupos. Útil para mostrar proporções e transições.248
Figura 21.14: Sankey plot representando fluxos entre categorias.
- Gráfico de categorias paralelas (parcats): Mostra relações entre múltiplas variáveis categóricas em paralelo. Útil para visualizar fluxos e proporções.REF?
Figura 21.15: Gráfico de categorias paralelas (parcats) representando transições entre categorias ao longo do tempo.
- Gráfico de pares (pairs plot): Mostra relações entre múltiplas variáveis quantitativas por meio de uma matriz de dispersão.REF?
Figura 21.16: Gráfico de pares representando correlações entre múltiplas variáveis.
21.3.4 Quais são os tipos de gráficos para dados longitudinais?
- Gráfico de spaghetti: Mostra trajetórias individuais ao longo do tempo, útil para dados longitudinais de variáveis contínuas.248,249
Figura 21.17: Gráfico spaghetti representando dados longitudinais.
- Gráfico de lasagna: Mostra trajetórias individuais ao longo do tempo, útil para dados longitudinais de variáveis categóricas.248,249
Figura 21.18: Gráfico de lasanha representando dados longitudinais categóricos.
- Gráfico nadador (swimmer plot): Representa a duração do acompanhamento individual de cada participante ao longo do tempo, destacando eventos clínicos importantes e pacientes ainda em seguimento.REF?
Code
# reprodutibilidade
set.seed(123)
# 1. Criando dados simulados
n_patients <- 25
df <- data.frame(
patient = paste0("P", sprintf("%02d", 1:n_patients)),
# início do acompanhamento
start_day = sample(0:40, n_patients, replace = TRUE),
# duração total
duration = sample(20:140, n_patients, replace = TRUE),
# evento intermediário
event_day = sample(10:120, n_patients, replace = TRUE),
# paciente ainda em seguimento?
ongoing = sample(c(TRUE, FALSE), n_patients, replace = TRUE)
)
# fim do acompanhamento
df$end_day <- df$start_day + df$duration
# ajustar evento para ficar dentro da linha
df$event_day <- pmin(
df$start_day + df$event_day,
df$end_day - 5
)
# ordenar pacientes pela duração
df <- df %>%
dplyr::arrange(desc(duration)) %>%
dplyr::mutate(patient = factor(patient, levels = patient))
# 2. Construção do Swimmer Plot
p <- ggplot2::ggplot(df) +
# linha principal de cada paciente
ggplot2::geom_segment(
ggplot2::aes(
x = start_day,
xend = end_day,
y = patient,
yend = patient
),
linewidth = 1
) +
# ponto do evento clínico
ggplot2::geom_point(
ggplot2::aes(
x = event_day,
y = patient
),
shape = 18,
size = 3
) +
# seta para pacientes ainda em seguimento
ggplot2::geom_segment(
data = subset(df, ongoing == TRUE),
ggplot2::aes(
x = end_day - 5,
xend = end_day,
y = patient,
yend = patient
),
arrow = ggplot2::arrow(length = grid::unit(0.15, "cm")),
linewidth = 1
) +
# tema
ggplot2::theme_bw(base_size = 12) +
ggplot2::labs(
x = "Dias após início do tratamento",
y = "Paciente"
) +
ggplot2::theme(
panel.grid.major.y = ggplot2::element_blank(),
panel.grid.minor = ggplot2::element_blank()
)
# 3. Exibir gráfico
print(p)
21.3.5 Quais são os tipos de gráficos para séries temporais?
- Gráfico de linhas: Mostra a evolução de uma variável ao longo do tempo, com pontos conectados por linhas.REF?
Figura 21.19: Gráfico de linha representando uma série temporal.
21.3.6 Quais são os tipos de gráficos para avaliação de resposta longitudinal?
- Waterfall plot: Representa a melhor variação percentual individual em relação ao baseline, geralmente ordenada do pior ao melhor respondedor. Pode mascarar a dinâmica temporal e induzir interpretações equivocadas quando usado isoladamente.250
Figura 21.20: Gráfico waterfall representando a melhor variação percentual em relação ao baseline para cada paciente.
- Spider plot: Mostra a variação percentual de uma variável ao longo do tempo para cada indivíduo, permitindo visualizar a trajetória longitudinal da resposta. Ainda assim, o uso de percentual de mudança apresenta limitações estatísticas, incluindo assimetria e dependência do valor basal.250
Figura 21.21: Gráfico spider representando a variação percentual do SLD ao longo do tempo para cada paciente.
21.3.7 Quais são os tipos de gráficos para dados multivariados?
- Gráfico de dispersão: Representa a relação entre duas variáveis, com pontos e uma linha de tendência.REF?
Figura 21.22: Gráfico de correlação entre duas variáveis com linha de tendência.
- Gráfico de matriz de dispersão: Mostra relações entre múltiplas variáveis quantitativas, útil para identificar padrões.REF?
Figura 21.23: Matriz de dispersão representando relações entre múltiplas variáveis.
- Gráfico de calor (heatmap): Representa dados em uma matriz, com cores indicando intensidade ou frequência.REF?
Figura 21.24: Mapa de calor da correlação entre variáveis.
- Gráfico de radar (ou gráfico de aranha): Representa várias variáveis em um único gráfico, útil para comparar perfis.REF?
Figura 21.25: Gráfico radar representando múltiplas variáveis.
21.3.8 Quais são as melhores práticas na elaboração de gráficos?
O tamanho da amostra total e subgrupos, se houver, deve estar descrito na figura ou na sua legenda.245
Para análise inferencial de figuras, as barras de erro representadas por erro-padrão ou intervalo de confiança no nível de significância \(\alpha\) pré-estabelecido são preferíveis à amplitude ou desvio-padrão.223,245
Evite gráficos de barra e mostre a distribuição dos dados sempre que possível.240
Exiba os pontos de dados em boxplots.240
Use jitter simétrico em gráficos de pontos para permitir a visualização de todos os dados.240
Prefira palhetas de cor adaptadas para daltônicos.240
Uma boa legenda torna a figura autossuficiente: descreva amostra (n), geometrias, métricas de incerteza, escalas/unidades e mensagem principal. Se houver modelo, indique fórmula/ajustes em nota.242
Evite gráficos de barras com médias para variáveis contínuas; prefira pontos/box/violino e, em amostras pequenas, exiba todos os dados.240
Checklist: (1) Mensagem está explícita? (2) Geometria adequada e dados visíveis? (3) Incerteza correta e rotulada? (4) Cores informativas e acessíveis? (5) Escalas comparáveis? (6) Legenda autossuficiente? (7) Diferença clara entre dados e modelos? (8) Arquivo exportado na resolução/tamanho exigidos?242
O pacote ggsci251 fornece palhetas de cores tais como pal_lancet, pal_nejm e pal_npg inspiradas em publicações científicas para uso em gráficos.
O pacote grDevices213 fornece a função dev.new para controlar diversos aspectos do gráfico, tais como tamanho e resolução.
O pacote tiff252 fornece a função writeTIFF para exportar gráficos em formato TIFF.
21.4 Fluxogramas
21.4.1 O que é um fluxograma?
Fluxogramas são representações visuais que organizam etapas, decisões, relações ou processos por meio de símbolos e setas.253
Fluxogramas auxiliam na compreensão de sequências de eventos e na comunicação de conceitos complexos de forma clara e rápida, sendo amplamente utilizados em ensino, pesquisa científica, apresentações e descrição de métodos experimentais.253
Fluxogramas não são utilizados apenas para representar processos. Em muitos contextos, também funcionam como ferramentas de planejamento, documentação, comunicação e coordenação entre diferentes participantes de um projeto.254
Todo fluxograma representa uma simplificação da realidade. Seu objetivo não é reproduzir todos os detalhes de um processo, mas destacar os elementos mais importantes para compreensão, análise ou comunicação.254
Historicamente, os fluxogramas desempenharam não apenas um papel técnico, mas também organizacional, servindo como instrumentos de comunicação entre diferentes participantes do desenvolvimento de sistemas.254
21.4.2 Por que utilizar fluxogramas em artigos científicos?
Fluxogramas permitem resumir métodos, processos experimentais e fluxos de participantes de forma mais eficiente do que descrições exclusivamente textuais.253
Diagramas bem construídos podem melhorar a aprendizagem, a retenção de informações e a comunicação entre pesquisadores de diferentes áreas e idiomas.253
Em apresentações científicas, fluxogramas ajudam o público a acompanhar processos complexos e favorecem a compreensão das relações entre etapas de um estudo.253
21.4.3 Quando utilizar fluxogramas?
Descrição de procedimentos laboratoriais.253
Protocolos experimentais.253
Sequências lineares de etapas.253
Fluxo de participantes em estudos clínicos.253
Processos decisórios.253
21.4.4 Quais são os elementos de um fluxograma?
Fluxogramas podem incluir elementos textuais e gráficos.253
Título: deve aparecer em posição de destaque e informar claramente a ideia principal do fluxograma.253
Legenda da figura: explica o objetivo geral do diagrama, descreve elementos importantes e define abreviações quando necessário.253
Rótulos identificadores: nomeiam componentes, etapas ou objetos representados.253
Rótulos explicativos: descrevem o que está acontecendo em cada etapa do processo.253
Marcadores de tempo: podem indicar a sequência temporal dos eventos quando o fluxograma representa processos cronológicos.253
Setas: representam direção, sequência de eventos, fluxo de informação ou relações entre etapas.253
Fluxos divergentes: indicam ramificações, caminhos alternativos ou eventos simultâneos.253
Ciclos: são úteis para representar processos repetitivos ou fenômenos cíclicos.253
Cores: podem destacar relações entre elementos, diferentes categorias ou estágios de um processo. O uso deve ser consistente ao longo da figura.253
Símbolos e ilustrações: ajudam a identificar rapidamente objetos, estruturas ou entidades envolvidas no processo.253
Ampliação ou redução de escala (zoom in e zoom out): permitem representar relações entre estruturas em diferentes níveis de detalhe.253
21.4.5 Quais são os princípios de um fluxograma?
O fluxo de leitura deve seguir uma direção intuitiva, preferencialmente de cima para baixo ou da esquerda para a direita.253
Elementos gráficos semelhantes devem representar conceitos semelhantes ao longo de toda a figura.253
Cores, setas, símbolos e legendas devem ser utilizados de forma consistente para facilitar a interpretação.253
Um fluxograma deve conter apenas as informações essenciais, evitando excesso de detalhes que possam prejudicar a compreensão.253
Títulos, legendas e rótulos explicativos ajudam o leitor a compreender rapidamente o significado da figura.253
Figura 21.26: Fluxograma baseado no Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (PRISMA).
Figura 21.27: Fluxograma baseado no Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT).
O pacote PRISMA2020255 fornece a função PRISMA_flowdiagram para elaboração do fluxograma de revisões sistemáticas no formato padrão.
O pacote consort256 fornece a função consort_plot para elaboração do fluxograma de ensaios experimentais no formato padrão.
21.4.6 Como construir fluxogramas claros e eficientes?
Utilize a mesma convenção gráfica para representar o mesmo conceito em toda a figura.253
Evite excesso de elementos visuais que possam gerar sobrecarga cognitiva.253
Garanta que o sentido de leitura seja intuitivo e claramente indicado pelas setas ou pela disposição dos elementos.253
Explique abreviações, símbolos e cores na legenda sempre que necessário.253
Priorize clareza e compreensão em vez de ornamentação visual.253
Evite representar detalhes desnecessários. Um fluxograma excessivamente complexo pode comprometer sua principal função: facilitar a compreensão do processo representado.254
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,