Capítulo 65 Tabelas


65.1 Tabelas


65.1.1 Por que usar tabelas?

  • Tabelas complementam o texto (e vice-versa), e podem apresentar os dados de modo mais acessível e informativo.526


65.1.2 Que informações incluir nas tabelas?

  • Título ou legenda, uma síntese descritiva (geralmente por meio de parâmetros descritivos), intervalos de confiança e/ou P-valores conforme necessário para adequada interpretação.526,527


65.1.3 Quais são os tipos de tabelas?

  • Tabela de frequência: apresenta a quantidade de ocorrências (frequência absoluta e relativa) de cada categoria de uma variável; usada com variáveis qualitativas ou quantitativas discretas.REF?

  • Tabela de frequência agrupada: organiza dados contínuos em intervalos de classe (ex: faixas etárias) e mostra as frequências correspondentes.REF?

  • Tabela de contingência (ou tabela cruzada): cruza duas variáveis categóricas, permitindo observar possíveis associações entre elas.REF?

  • Tabela de medidas descritivas: resume variáveis quantitativas com estatísticas como média, mediana, desvio-padrão, mínimo, máximo e quartis.REF?

  • Tabela de comparação entre grupos: apresenta médias, desvios-padrão e ocasionalmente resultados de testes de inferência estatística para comparar dois ou mais grupos.REF?

  • Tabela de resultados de testes estatísticos: exibe valores de estatísticas de teste , P valores e intervalos de confiança; usada para mostrar inferências.REF?

  • Tabela de regressão (ou de modelos estatísticos): mostra os coeficientes de regressão, erros padrão, intervalos de confiança e P valores para cada variável de um modelo.REF?

  • Tabela de séries temporais ou longitudinais: organiza dados medidos em diferentes momentos no tempo, permitindo visualizar tendências ou variações longitudinais.REF?






65.1.4 Quais são os erros mais comuns de preenchimento de tabelas?

  • Erros tipográficos.531

  • Ausência de rótulos ou unidades nas variáveis.531

  • Relatar estatísticas incorretamente, tais como rotular variáveis contínuas como porcentagens.531

  • Estatísticas descritivas de tendência central (ex.: médias) relatadas sem a estatística de dispersão correspondente (ex.: desvio-padrão).531

  • Desvio-padrão nulo (\(\sigma=0\)).531

  • Valores porcentuais que não correspondem ao numerador dividido pelo denominador.531


65.2 Tabela 1


65.2.1 O que é a ‘Tabela 1’?

  • A ‘Tabela 1’ descreve as características demográficas, sociais e clínicas da amostra, completa ou agrupada por algum fator, geralmente por meio de parâmetros de tendência central e dispersão.424,457


65.2.2 Qual a utilidade da ‘Tabela 1’?

  • Descrever (conhecer) as características da amostra e dos grupos sendo comparados, quando aplicável.457

  • Verificar aderência ao protocolo do estudo, incluindo critérios de inclusão/exclusão, tamanho da amostra e perdas amostrais.457

  • Permitir a replicação do estudo.457

  • Meta-analisar os dados junto a estudos similares.457

  • Avaliar a generalização (validade externa) das conclusões do estudo.457


65.2.3 O que é a falácia da ‘Tabela 1’?

  • Falácia da Tabela 1 ocorre pela interpretação errônea dos P-valores na comparação entre grupos, na linha de base, de um ensaio clínico aleatorizado.462

  • Não interprete P da linha de base em ensaios clínicos como “desequilíbrio” (falácia da Tabela 1). Mantenha P-valor apenas como descritivo (ou omita), enfatizando desenho e aleatorização.228


65.2.4 Como construir a ‘Tabela 1’?

  • A Tabela 1 geralmente é utilizada para descrever as características da amostra estudada, possibilitando a análise de ameaças à validade interna e/ou externa ao estudo.188,517




Tabela 65.1: Características da amostra por grupo.
Características N Controle
N = 103
1
Intervenção
N = 97
1
Valor-p2
Sexo 200

0.060
    F
49 (48%) 59 (61%)
    M
54 (52%) 38 (39%)
Idade 200

0.8
    Média (Desvio Padrão)
61 (12) 60 (12)
    Mediana [Q1, Q3]
61 [53, 69] 60 [53, 69]
IMC 200

0.2
    Média (Desvio Padrão)
26.8 (3.7) 27.5 (4.0)
    Mediana [Q1, Q3]
26.6 [24.5, 29.7] 27.6 [25.6, 29.9]
1 n (%)
2 Teste qui-quadrado de independência; Teste de soma de postos de Wilcoxon


65.3 Tabela 2


65.3.1 Qual a utilidade da ‘Tabela 2’?

  • A Tabela 2 mostra associações ajustadas multivariadas com o resultado para variáveis resumidas na Tabela 1.424


65.3.2 O que é a falácia da ‘Tabela 2’?

  • A Tabela 2 pode induzir ao erro de interpretação pelas estimativas de efeitos para covariáveis do modelo também serem utilizados para controlar a confusão da exposição.312,424

  • Ao apresentar estimativas de efeito ajustadas para covariáveis juntamente com a estimativa de efeito ajustada para a exposição primária, a Tabela 2 sugere implicitamente que todas estas estimativas podem ser interpretadas de forma semelhante, se não de forma idêntica, como estimativa do efeito total.312,424

  • A falácia da Tabela 2 pode ser evitada limitando-se a tabela a estimativas das medidas primárias do efeito de exposição nos diferentes modelos, com as covariáveis secundárias de “ajuste” relatadas em uma nota de rodapé, juntamente com a forma como foram categorizadas ou modeladas.424


Tabela 65.2: Exemplo clássico de apresentação suscetível à Falácia da ‘Tabela 2’.
Características
Sem ajuste
Ajustado
OR 95% IC Valor-p OR 95% IC Valor-p
Grupo





    Controle

    Intervenção 1.71 0.98, 3.02 0.061 1.70 0.97, 3.03 0.067
Idade


1.02 1.00, 1.05 0.087
IMC


1.05 0.97, 1.13 0.2
Abreviações: IC = Intervalo de Confiança, OR = Razão de chances


65.3.3 Como construir a ‘Tabela 2’?

  • A Tabela 2 pode ser utilizada para apresentar estimativas de múltiplos efeitos ajustados de um mesmo modelo estatístico.424


Tabela 65.3: Exposição (OR; 95% IC) com e sem ajuste.
Características
Sem ajuste
Ajustado
OR 95% IC Valor-p OR 95% IC Valor-p
Grupo





    Controle

    Intervenção 1.71 0.98, 3.02 0.061 1.70 0.97, 3.03 0.067
Abreviações: IC = Intervalo de Confiança, OR = Razão de chances
Nota. Modelo ajustado por Idade (contínua) e IMC (contínuo). Covariáveis são usadas apenas para controle de confusão e não devem ser interpretadas como efeitos causais (Falácia da Tabela 2).





Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

188.
Greenhalgh T. How to read a paper: Statistics for the non-statistician. I: Different types of data need different statistical tests. BMJ. 1997;315(7104):364–366. doi:10.1136/bmj.315.7104.364
228.
Weissgerber TL, Winham SJ, Heinzen EP, et al. Reveal, Dont Conceal. Circulation. 2019;140(18):1506–1518. doi:10.1161/circulationaha.118.037777
312.
Bandoli G, Palmsten K, Chambers CD, Jelliffe-Pawlowski LL, Baer RJ, Thompson CA. Revisiting the Table 2 fallacy: A motivating example examining preeclampsia and preterm birth. Paediatric and Perinatal Epidemiology. 2018;32(4):390–397. doi:10.1111/ppe.12474
314.
Sjoberg DD, Whiting K, Curry M, Lavery JA, Larmarange J. Reproducible Summary Tables with the gtsummary Package. The R Journal. 2021;13:570–580. doi:10.32614/RJ-2021-053
424.
Westreich D, Greenland S. The Table 2 Fallacy: Presenting and Interpreting Confounder and Modifier Coefficients. American Journal of Epidemiology. 2013;177(4):292–298. doi:10.1093/aje/kws412
457.
Chen H, Lu Y, Slye N. Testing for baseline differences in clinical trials. International Journal of Clinical Trials. 2020;7(2):150. doi:10.18203/2349-3259.ijct20201720
462.
Pijls BG. The Table I Fallacy: P Values in Baseline Tables of Randomized Controlled Trials. Journal of Bone and Joint Surgery. 2022;104(16):e71. doi:10.2106/jbjs.21.01166
517.
Hayes-Larson E, Kezios KL, Mooney SJ, Lovasi G. Who is in this study, anyway? Guidelines for a useful Table 1. Journal of Clinical Epidemiology. 2019;114:125–132. doi:10.1016/j.jclinepi.2019.06.011
526.
Inskip H, Ntani G, Westbury L, et al. Getting started with tables. Archives of Public Health. 2017;75(1). doi:10.1186/s13690-017-0180-1
527.
Kwak SG, Kang H, Kim JH, et al. The principles of presenting statistical results: Table. Korean Journal of Anesthesiology. 2021;74(2):115–119. doi:10.4097/kja.20582
528.
Rich B. table1: Tables of Descriptive Statistics in HTML.; 2023. https://CRAN.R-project.org/package=table1.
529.
Gohel D, Skintzos P. flextable: Functions for Tabular Reporting.; 2023. https://CRAN.R-project.org/package=flextable.
530.
Thériault R. rempsyc: Convenience functions for psychology. Journal of Open Source Software. 2023;8:5466. doi:10.21105/joss.05466
531.
Barnett A. Automated detection of over- and under-dispersion in baseline tables in randomised controlled trials. F1000Research. 2023;11:783. doi:10.12688/f1000research.123002.2