Capítulo 28 Análise preditiva
28.1 Predição
28.1.1 O que são modelos preditivos clínicos?
Modelos preditivos clínicos combinam características do paciente, sinais, sintomas, exames ou outros preditores para estimar a probabilidade de um desfecho diagnóstico ou prognóstico.306
Modelos diagnósticos estimam a probabilidade de uma condição já estar presente no momento da avaliação, enquanto modelos prognósticos estimam a probabilidade de um evento ocorrer no futuro, dentro de um horizonte de tempo definido.306
28.1.2 Qual é a diferença entre predição diagnóstica e prognóstica?
Na predição diagnóstica, o desfecho de interesse corresponde ao estado atual do paciente, como a presença ou ausência de uma doença no momento da avaliação.306
Na predição prognóstica, o desfecho ainda não ocorreu: o modelo estima o risco de um evento futuro, como morte, recaída, internação, complicação ou resposta terapêutica em determinado período.306
Em modelos prognósticos, é fundamental definir claramente o horizonte de predição, pois prever risco em 30 dias, 1 ano ou 5 anos pode gerar interpretações clínicas muito diferentes.306
28.1.3 Como avaliar o desempenho de um modelo preditivo?
O desempenho de um modelo preditivo costuma ser avaliado principalmente por discriminação e calibração.306,307
Discriminação: Capacidade do modelo de diferenciar indivíduos que terão o evento daqueles que não terão, geralmente medida pelo índice C ou pela AUC.306,307
Calibração: Concordância entre os riscos preditos pelo modelo e as proporções observadas de eventos.306,307
A calibração é especialmente importante quando o modelo será usado para definir limiares de decisão clínica, como indicar ou não uma intervenção, exame ou tratamento.306
28.1.4 O que é validação de um modelo preditivo?
Validação interna avalia se o modelo mantém desempenho adequado dentro da mesma população usada em seu desenvolvimento, geralmente por bootstrap, validação cruzada ou divisão treino-teste.308
Validação externa avalia o desempenho do modelo em novos pacientes, coletados em outro período, outro centro, outra região ou outro sistema de saúde.308
A validação interna está mais relacionada ao risco de sobreajuste, enquanto a validação externa está relacionada à transportabilidade do modelo para novos contextos clínicos.308
28.1.5 Um modelo pode ser considerado definitivamente validado?
Não existe um modelo preditivo validado de forma definitiva, pois populações, práticas clínicas, medidas, equipamentos e padrões de cuidado variam entre locais e ao longo do tempo.308
Uma única validação externa representa apenas um retrato do desempenho do modelo em determinado cenário, com determinada população, em determinado momento.308
É mais adequado dizer que um modelo apresentou bom desempenho em uma validação específica do que afirmar que ele está universalmente validado.308
28.1.6 Por que a transportabilidade é um problema?
A transportabilidade de um modelo pode ser afetada por diferenças entre populações, como idade, gravidade da doença, prevalência do desfecho, critérios de inclusão e contexto assistencial.307,308
Também pode ser afetada por diferenças na forma de medir preditores e desfechos, como exames laboratoriais, métodos de imagem, julgamento clínico, protocolos locais e disponibilidade de recursos.307,308
Mesmo quando a discriminação permanece aparentemente estável, a calibração pode se deteriorar com o tempo, fenômeno conhecido como drift de calibração.307,308
28.1.7 Quais são os principais riscos metodológicos em modelos preditivos?
Entre os problemas comuns estão amostras pequenas, dados não representativos, ausência de validação externa, relato incompleto, seleção excessivamente orientada pelos dados, dicotomização de variáveis contínuas e tratamento inadequado de dados ausentes.306
O desenvolvimento de novos modelos deve ser evitado quando já existem modelos relevantes para o mesmo desfecho e população, pois muitas vezes é mais útil validar, atualizar, ampliar ou estudar o impacto de modelos existentes.306
28.1.8 Como melhorar o uso de modelos preditivos?
Estudos multicêntricos ajudam a avaliar a heterogeneidade de desempenho entre locais, populações e sistemas de saúde.308
Modelos promissores devem ser submetidos a validações externas repetidas, bem relatadas e em diferentes contextos clínicos.308
Antes da implementação local, recomenda-se validação no próprio serviço, com atenção especial à calibração.308
Após a implementação, o desempenho deve ser monitorado ao longo do tempo, com possibilidade de recalibração ou atualização quando o modelo deixar de refletir a realidade clínica atual.307,308
O pacote ggeffects309 fornece a função predict_response para calcular valores preditos marginais ou ajustados das variáveis de desfecho.
O pacote ggeffects309 fornece a função test_response para testar valores preditos marginais ou ajustados das variáveis de desfecho.
28.1.9 Como árvores de decisão são usadas para predição?
Utilizam padrões históricos para prever resultados futuros em novos registros.310
Identificam combinações de fatores que elevam ou reduzem o risco de um evento clínico.310
Podem ser aplicadas em diagnósticos médicos para prever subtipos de condições ou diferentes respostas terapêuticas.310
28.2 Interpretação e aplicação
28.2.1 Quais são as implicações do uso de árvores de decisão em predição?
Tornam os resultados mais compreensíveis para clínicos e pesquisadores, com regras “se-então” claras.310
Auxiliam na formulação de hipóteses clínicas e direcionamento de futuras pesquisas.310
Podem ser estendidas para predição de sobrevivência, subgrupos de tratamento e análise de custo-benefício.310
28.2.2 Por que o desempenho estatístico não basta?
Um modelo pode apresentar boa discriminação e calibração, mas ainda assim não melhorar decisões clínicas se suas predições não forem usadas de modo adequado.306,307
Por isso, além de avaliar desempenho estatístico, é necessário avaliar a utilidade clínica do modelo, isto é, se ele ajuda a escolher melhor entre intervir, investigar, acompanhar ou não tratar.306,307
A análise de curva de decisão contribui justamente para essa etapa, pois compara o benefício líquido do modelo com estratégias simples, como “tratar todos” ou “tratar ninguém”.311
28.3 Análise de curva de decisão
28.3.1 O que é a análise de curva de decisão?
- Análise de curva de decisão é um método para avaliar a utilidade clínica de modelos preditivos em comparação às estratégias padrão “tratar todos” ou “tratar ninguém”.312
28.3.2 O que significam os eixos da curva de decisão?
O eixo vertical mostra o benefício líquido, ganho obtido ao usar o modelo em relação às estratégias de referência. O eixo horizontal mostra a preferência, que corresponde ao limiar de decisão: a probabilidade mínima de evento a partir da qual se recomenda intervir.311
O limiar reflete o equilíbrio entre o risco de perder casos da doença e o risco de intervenções desnecessárias.311
28.3.3 Como interpretar o benefício líquido?
O benefício líquido é o número de verdadeiros positivos obtidos ajustado pelo “custo” dos falsos positivos, expresso na mesma unidade dos verdadeiros positivos.311
Quando a estratégia padrão é “tratar todos”, o benefício líquido também pode ser expresso como intervenções desnecessárias evitadas, facilitando a interpretação clínica.311
28.3.4 Por que é importante comparar sempre com “tratar todos” e “tratar nenhum”?
Porque essas duas estratégias são frequentemente plausíveis em contextos reais: tratar todos os pacientes de risco ou tratar nenhum.311
Um modelo ou teste só é considerado útil se apresentar maior benefício líquido do que ambas as estratégias, garantindo que realmente agrega valor clínico.311
Essa comparação evita que um modelo com bom AUC mas má calibração seja usado, já que pode apresentar net benefit inferior às estratégias padrão.311
28.3.5 Quais são os limites e usos da análise de curva de decisão?
A análise de curva de decisão não substitui uma análise de decisão completa ou uma avaliação de custo-efetividade, mas é mais simples e prática, exigindo apenas a definição de um intervalo de limiares de decisão razoáveis.311
Em situações claras (modelo com nenhum benefício ou benefício amplo), pode dispensar análises complexas.311
Em casos ambíguos, serve como primeiro passo antes de análises mais detalhadas.311
28.3.6 A análise de curva de decisão pode ser conduzida sem dados individuais de pacientes?
- Em modelos bem calibrados e com tamanho amostral adequado, a análise de curva de decisão pode ser realizada utilizando apenas estimativas sumárias (média e desvio-padrão).312
28.3.7 Como funciona o cálculo do benefício líquido?
- O benefício líquido é estimado contrastando verdadeiros positivos e falsos positivos em diferentes limiares de decisão.312
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,