Capítulo 49 Delineamento de estudos
49.1 Critérios de delineamento
49.1.1 Quais critérios são utilizados para classificar os delineamentos de estudos?
Os delineamentos de estudos podem ser classificados segundo múltiplos eixos conceituais, que devem ser integrados de forma dinâmica.407
Originalidade do estudo: primário ou secundário.407
Interferência do pesquisador: observacional ou intervencional.407
Unidade de análise: clínico ou experimental.407
Perfil epidemiológico: descritivo ou analítico.407
Direcionalidade temporal: prospectivo ou retrospectivo.407
Período de seguimento: transversal ou longitudinal.407
Relação temporal entre exposição e desfecho: coorte ou caso-controle.407
Existência de controle comparativo: controlado, comparativo ou não controlado.407
Tipo de frequência estudada: prevalência ou incidência.407
Aleatorização amostral: aleatorizado ou não aleatorizado.407
Nível de mascaramento: aberto, unicego, duplo-cego, triplo-cego ou quádruplo-cego.407
49.2 Alocação
49.2.1 O que é alocação?
Alocação é o processo pelo qual os participantes de um estudo são distribuídos entre os diferentes grupos da pesquisa (por exemplo, grupo experimental e grupo controle).407
A qualidade da alocação influencia diretamente o risco de vieses de seleção e a comparabilidade entre os grupos.407
A alocação verdadeiramente aleatória reduz a influência de fatores confundidores, aumenta a validade interna do estudo e permite aplicação adequada de testes estatísticos inferenciais.407
49.2.2 Quais são os tipos de alocação?
Alocação pode ser aleatória (randomização), quando a distribuição é feita por sorteio ou método imprevisível.407
Alocação pode ser não aleatória, quando a distribuição segue critérios definidos previamente (ordem de chegada, conveniência, decisão, dentre outros).407
Figura 49.1: Alocação 1:1 entre dois grupos de participantes
49.2.3 O que é alocação oculta (allocation concealment)?
Alocação oculta é o procedimento metodológico que impede que os pesquisadores responsáveis pelo recrutamento saibam previamente qual será o próximo grupo ao qual o participante será designado.408
Alocação ocultaocorre antes ou no momento da inclusão do participante no estudo.408
O objetivo principal da alocação oculta é prevenir viés de seleção, garantindo que a decisão de incluir um participante não seja influenciada pelo conhecimento da futura alocação.408
49.3 Mascaramento
49.3.1 O que é mascaramento?
Mascaramento (ou cegamento) é o procedimento metodológico pelo qual uma ou mais partes envolvidas na pesquisa desconhecem a qual grupo os participantes pertencem, geralmente em ensaios clínicos randomizados.407,408
O objetivo principal do mascaramento é reduzir vieses de observação, expectativa e interpretação dos resultados.407,408
49.3.2 Por que o mascaramento é tão importante?
- A ausência de mascaramento pode introduzir: viés de aferição, viés de expectativa, viés de interpretação, contaminação ou cointervenção e efeito placebo diferencial.408
49.3.3 Quem pode ser mascarado?
- Participantes, profissionais de saúde, avaliadores de desfecho, coletores de dados, analistas estatísticos, comitês de monitoramento e autores do manuscrito.408
49.3.4 Quais são os tipos de mascaramento?
Aberto (open label): todos sabem a alocação.407
Unicego; apenas os participantes desconhecem a alocação.407
Duplo-cego: participantes e equipe avaliadora desconhecem a alocação.407
Triplo-cego: inclui também o bioestatístico.407
Quádruplo-cego: inclui ainda o autor responsável pela redação da discussão inicial.407
49.3.5 Qual é a diferença entre alocação oculta e mascaramento?
A alocação oculta protege o processo de inclusão dos participantes e visa reduzir viés de seleção.408
O mascaramento (cegamento) ocorre após a alocação e tem como objetivo reduzir viés de aferição, interpretação ou expectativa.408
Em ensaios clínicos randomizados, a alocação oculta pode sempre ser implementada, enquanto o mascaramento nem sempre é possível.408
49.4 Pareamento
49.4.1 O que é pareamento?
Pareamento significa que para cada participante de um grupo (por exemplo, com alguma condição clínica), existe um (ou mais) participantes (por exemplo, grupo controle) que possui características iguais ou similares relativas a algumas variáveis de interesse.409
As variáveis escolhidas para pareamento devem ter relação com as variáveis de desfecho, mas não são de interesse elas mesmas.409
O ajuste por pareamento deve ser incluído nas análises estatísticas mesmo que as variáveis de pareamento não sejam consideradas prognósticas ou confundidores na amostra estudada.409
A ausência de evidência estatística de diferença entre grupos não é considerada pareamento.409
49.5 Aleatorização
49.5.1 O que é aleatorização?
Aleatorização é o processo de distribuição dos participantes nos diferentes grupos do estudo por meio de um mecanismo imprevisível, garantindo que todos tenham a mesma probabilidade de serem alocados a qualquer grupo.407
Os principais objetivos da aleatorização são minimizar vieses de seleção, balancear variáveis conhecidas e desconhecidas entre os grupos, assegurar comparabilidade amostral e fortalecer a validade interna da pesquisa.407
49.5.2 Quais são os métodos de aleatorização?
Sorteio simples: cada participante tem a mesma probabilidade de ser alocado a qualquer grupo, sem restrições.407
Tabelas de números aleatórios: uso de tabelas pré-geradas de números aleatórios para determinar a alocação.407
Geradores computacionais: uso de algoritmos de geração de números aleatórios em softwares para alocação.407
Blocos: os participantes são alocados em blocos de tamanho fixo para garantir equilíbrio entre os grupos ao longo do tempo.407
Estratificação: os participantes são estratificados por características relevantes (por exemplo, idade, sexo) e depois aleatoriamente alocados dentro de cada estrato para garantir equilíbrio dessas características entre os grupos.407
49.5.3 Quais são as vantagens e desvantagens da aleatorização simples?
A aleatorização simples, embora metodologicamente correta, pode gerar desequilíbrio numérico entre os grupos, especialmente em estudos com amostras pequenas. Estudos de simulação demonstram que a probabilidade de equilíbrio perfeito (1:1) é baixa, independentemente do tamanho da amostra.387
Em amostras pequenas (\(n \leq 60\)), esse desequilíbrio pode reduzir o poder estatístico, aumentando o risco de erro do tipo II. À medida que o tamanho amostral cresce, o impacto do desequilíbrio no poder estatístico diminui substancialmente.387
Em amostras pequenas (\(n \leq 60\) participantes), recomenda-se a utilização de randomização em blocos ou métodos que restrinjam o desequilíbrio.387
Em amostras maiores (\(n > 60\)), a aleatorização simples tende a ser aceitável, pois o desequilíbrio raramente compromete o poder estatístico de forma relevante.387
49.6 Taxonomia de estudos
49.6.1 Como podem ser classificados os estudos científicos?
Estudos científicos podem ser classificados em básicos, observacionais, experimentais, acurácia diagnóstica, propriedades psicométricas, avaliação econômica e revisões de literatura:410–419
-
Genética
Celular
Experimentos com animais
Desenvolvimento de métodos
Estudos de propriedades psicométricas412,414
Validade
Concordância
Confiabilidade
Estudos de desempenho diagnóstico415,418
Transversal
Caso-Controle
Comparativo
Totalmente pareado
Parcialmente pareado com subgrupo aleatório
Parcialmente pareado com subgrupo não aleatório
Não pareado aleatório
Não pareado não aleatório
-
Descritivo
Estudo de caso
Série de casos
Transversal
Analítico
Transversal
Caso-Controle
Caso-Controle aninhado
Caso-Coorte
Coorte prospectiva ou retrospectiva
Estudos quase-experimentais413
Quase-aleatorizado controlado
Estimação de variável instrumental
Descontinuidade de regressão
Série temporal interrompida controlada
Série temporal interrompida
Diferença
-
Fases I a IV
Aleatorizado controlado
Não-aleatorizado controlado
Autocontrolado
Cruzado
Fatorial
Campo
Comunitário
Estudos de avaliação econômica411
Análise de custo
Análise de minimização de custo
Análise de custo-utilidade
Análise de custo-efetividade
Análise de custo-benefício
Estudos de revisão410
49.7 Hierarquia da evidência científica
49.7.1 Quais são os modelos de hierarquia da evidência científica?
O modelo “4S” organiza as fontes de evidência em uma hierarquia de quatro níveis: Studies (estudos), Syntheses (sínteses), Synopses (sinopses) e Systems (sistemas).422
O modelo “5S” representa uma evolução dessa organização, estruturando a evidência em cinco níveis hierárquicos: Studies (estudos), Syntheses (sínteses), Synopses (sinopses), Summaries (sumários) e Systems (sistemas).423
O modelo “6S” constitui um refinamento do modelo “5S”, organizando as fontes de evidência em seis níveis hierárquicos, com base no grau de pré-avaliação e aplicabilidade clínica: Studies (estudos), Synopses of Studies (sinopses de estudos), Syntheses (sínteses), Synopses of Syntheses (sinopses de revisões), Summaries (sumários — diretrizes e textos clínicos) e Systems (sistemas de decisão clínica).424
Recomenda-se iniciar a busca pela evidência no nível mais alto disponível. Na ausência de informações adequadas, deve-se prosseguir progressivamente para níveis inferiores da hierarquia.422
À medida que se avança na hierarquia, diminui o esforço necessário para interpretar a evidência, uma vez que os níveis superiores já apresentam informações previamente avaliadas e sintetizadas.425
No nível basal da pirâmide (Studies), existe ainda uma hierarquia interna entre os diferentes desenhos de estudo, variando desde estudos experimentais iniciais até ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas.425
49.7.2 Quais são as limitações da hierarquia da evidência científica?
O modelo tradicional da pirâmide da evidência tem sido progressivamente questionado diante das transformações tecnológicas recentes, especialmente com a incorporação da inteligência artificial na pesquisa clínica.426
A hierarquia tradicional tende a supervalorizar estudos experimentais altamente controlados, assumindo que maior validade interna implica automaticamente maior aplicabilidade clínica. Estudos conduzidos em condições ideais podem apresentar baixa validade externa, limitando sua generalização para contextos reais.427
A avaliação de estudos deve considerar separadamente a validade interna (capacidade de estabelecer relações causais sob controle experimental) e a validade externa (grau de generalização dos resultados para contextos reais).427
Em estudos qualitativos, a avaliação da qualidade metodológica não se baseia nos conceitos tradicionais de validade interna e externa, mas sim em critérios como autenticidade e transferibilidade, que refletem a fidelidade da descrição da experiência e sua aplicabilidade teórica a outros contextos.427
A posição da meta-análise no topo da hierarquia da evidência não é absoluta. Embora integre resultados de ensaios clínicos randomizados, sua validade depende diretamente da qualidade metodológica dos estudos incluídos, podendo reproduzir ou até amplificar vieses presentes nas evidências primárias.428
Embora útil como ferramenta de organização e tomada de decisão, a hierarquia da evidência deve ser interpretada como um guia, e não como uma regra absoluta, uma vez que a qualidade metodológica pode variar dentro de cada nível.425
Os níveis superiores da pirâmide dependem diretamente da qualidade das evidências disponíveis nos níveis inferiores, de modo que limitações nos estudos primários podem impactar toda a cadeia de síntese do conhecimento.425
Existe um intervalo temporal entre a produção de novas evidências e sua incorporação nos níveis superiores da hierarquia, o que pode limitar a atualidade de algumas fontes secundárias.425
Evidências pertencentes a um mesmo nível hierárquico podem apresentar qualidade metodológica variável, de modo que a classificação por tipo de estudo não garante, por si só, maior validade científica.425
A avaliação crítica da evidência deve considerar múltiplas dimensões, evitando uma interpretação rígida da hierarquia e reforçando a necessidade de julgamento clínico e metodológico na tomada de decisão.429
Ensaios clínicos randomizados iniciam como evidência de alta qualidade, mas podem ser rebaixados dependendo de limitações metodológicas, enquanto estudos observacionais podem ser elevados de nível quando apresentam efeitos consistentes, fortes e biologicamente plausíveis.429
Embora a hierarquia tradicional da evidência posicione ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas no topo, estudos mais recentes demonstram que essa classificação, isoladamente, pode ser insuficiente para determinar a qualidade real da evidência.429
Figura 49.2: Hierarquia da evidência científica: modelo 6S
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,