Capítulo 49 Delineamento de estudos
49.1 Critérios de delineamento
49.1.1 Quais critérios são utilizados para classificar os delineamentos de estudos?
Os delineamentos de estudos podem ser classificados segundo múltiplos eixos conceituais, que devem ser integrados de forma dinâmica.389
Originalidade do estudo: primário ou secundário.389
Interferência do pesquisador: observacional ou intervencional.389
Unidade de análise: clínico ou experimental.389
Perfil epidemiológico: descritivo ou analítico.389
Direcionalidade temporal: prospectivo ou retrospectivo.389
Período de seguimento: transversal ou longitudinal.389
Relação temporal entre exposição e desfecho: coorte ou caso-controle.389
Existência de controle comparativo: controlado, comparativo ou não controlado.389
Tipo de frequência estudada: prevalência ou incidência.389
Aleatorização amostral: aleatorizado ou não aleatorizado.389
Nível de mascaramento: aberto, unicego, duplo-cego, triplo-cego ou quádruplo-cego.389
49.2 Alocação
49.2.1 O que é alocação?
Alocação é o processo pelo qual os participantes de um estudo são distribuídos entre os diferentes grupos da pesquisa (por exemplo, grupo experimental e grupo controle).389
A qualidade da alocação influencia diretamente o risco de vieses de seleção e a comparabilidade entre os grupos.389
A alocação verdadeiramente aleatória reduz a influência de fatores confundidores, aumenta a validade interna do estudo e permite aplicação adequada de testes estatísticos inferenciais.389
49.2.2 Quais são os tipos de alocação?
Alocação pode ser aleatória (randomização), quando a distribuição é feita por sorteio ou método imprevisível.389
Alocação pode ser não aleatória, quando a distribuição segue critérios definidos previamente (ordem de chegada, conveniência, decisão, dentre outros).389
Figura 49.1: Alocação 1:1 entre dois grupos de participantes
49.2.3 O que é alocação oculta (allocation concealment)?
Alocação oculta é o procedimento metodológico que impede que os pesquisadores responsáveis pelo recrutamento saibam previamente qual será o próximo grupo ao qual o participante será designado.390
Alocação ocultaocorre antes ou no momento da inclusão do participante no estudo.390
O objetivo principal da alocação oculta é prevenir viés de seleção, garantindo que a decisão de incluir um participante não seja influenciada pelo conhecimento da futura alocação.390
49.3 Mascaramento
49.3.1 O que é mascaramento?
Mascaramento (ou cegamento) é o procedimento metodológico pelo qual uma ou mais partes envolvidas na pesquisa desconhecem a qual grupo os participantes pertencem, geralmente em ensaios clínicos randomizados.389,390
O objetivo principal do mascaramento é reduzir vieses de observação, expectativa e interpretação dos resultados.389,390
49.3.2 Por que o mascaramento é tão importante?
- A ausência de mascaramento pode introduzir: viés de aferição, viés de expectativa, viés de interpretação, contaminação ou cointervenção e efeito placebo diferencial.390
49.3.3 Quem pode ser mascarado?
- Participantes, profissionais de saúde, avaliadores de desfecho, coletores de dados, analistas estatísticos, comitês de monitoramento e autores do manuscrito.390
49.3.4 Quais são os tipos de mascaramento?
Aberto (open label): todos sabem a alocação.389
Unicego; apenas os participantes desconhecem a alocação.389
Duplo-cego: participantes e equipe avaliadora desconhecem a alocação.389
Triplo-cego: inclui também o bioestatístico.389
Quádruplo-cego: inclui ainda o autor responsável pela redação da discussão inicial.389
49.3.5 Qual é a diferença entre alocação oculta e mascaramento?
A alocação oculta protege o processo de inclusão dos participantes e visa reduzir viés de seleção.390
O mascaramento (cegamento) ocorre após a alocação e tem como objetivo reduzir viés de aferição, interpretação ou expectativa.390
Em ensaios clínicos randomizados, a alocação oculta pode sempre ser implementada, enquanto o mascaramento nem sempre é possível.390
49.4 Pareamento
49.4.1 O que é pareamento?
Pareamento significa que para cada participante de um grupo (por exemplo, com alguma condição clínica), existe um (ou mais) participantes (por exemplo, grupo controle) que possui características iguais ou similares relativas a algumas variáveis de interesse.391
As variáveis escolhidas para pareamento devem ter relação com as variáveis de desfecho, mas não são de interesse elas mesmas.391
O ajuste por pareamento deve ser incluído nas análises estatísticas mesmo que as variáveis de pareamento não sejam consideradas prognósticas ou confundidores na amostra estudada.391
A ausência de evidência estatística de diferença entre grupos não é considerada pareamento.391
49.5 Aleatorização
49.5.1 O que é aleatorização?
Aleatorização é o processo de distribuição dos participantes nos diferentes grupos do estudo por meio de um mecanismo imprevisível, garantindo que todos tenham a mesma probabilidade de serem alocados a qualquer grupo.389
Os principais objetivos da aleatorização são minimizar vieses de seleção, balancear variáveis conhecidas e desconhecidas entre os grupos, assegurar comparabilidade amostral e fortalecer a validade interna da pesquisa.389
49.5.2 Quais são os métodos de aleatorização?
Sorteio simples: cada participante tem a mesma probabilidade de ser alocado a qualquer grupo, sem restrições.389
Tabelas de números aleatórios: uso de tabelas pré-geradas de números aleatórios para determinar a alocação.389
Geradores computacionais: uso de algoritmos de geração de números aleatórios em softwares para alocação.389
Blocos: os participantes são alocados em blocos de tamanho fixo para garantir equilíbrio entre os grupos ao longo do tempo.389
Estratificação: os participantes são estratificados por características relevantes (por exemplo, idade, sexo) e depois aleatoriamente alocados dentro de cada estrato para garantir equilíbrio dessas características entre os grupos.389
49.5.3 Quais são as vantagens e desvantagens da aleatorização simples?
A aleatorização simples, embora metodologicamente correta, pode gerar desequilíbrio numérico entre os grupos, especialmente em estudos com amostras pequenas. Estudos de simulação demonstram que a probabilidade de equilíbrio perfeito (1:1) é baixa, independentemente do tamanho da amostra.378
Em amostras pequenas (\(n ≤ 60\)), esse desequilíbrio pode reduzir o poder estatístico, aumentando o risco de erro do tipo II. À medida que o tamanho amostral cresce, o impacto do desequilíbrio no poder estatístico diminui substancialmente.378
Em amostras pequenas (\(n < 60\) participantes), recomenda-se a utilização de randomização em blocos ou métodos que restrinjam o desequilíbrio.378
Em amostras maiores (\(n > 60\)), a aleatorização simples tende a ser aceitável, pois o desequilíbrio raramente compromete o poder estatístico de forma relevante.378
49.6 Taxonomia de estudos
49.6.1 Como podem ser classificados os estudos científicos?
Estudos científicos podem ser classificados em básicos, observacionais, experimentais, acurácia diagnóstica, propriedades psicométricas, avaliação econômica e revisões de literatura:392–401
-
Genética
Celular
Experimentos com animais
Desenvolvimento de métodos
Estudos de propriedades psicométricas394,396
Validade
Concordância
Confiabilidade
Estudos de desempenho diagnóstico397,400
Transversal
Caso-Controle
Comparativo
Totalmente pareado
Parcialmente pareado com subgrupo aleatório
Parcialmente pareado com subgrupo não aleatório
Não pareado aleatório
Não pareado não aleatório
-
Descritivo
Estudo de caso
Série de casos
Transversal
Analítico
Transversal
Caso-Controle
Caso-Controle aninhado
Caso-Coorte
Coorte prospectiva ou retrospectiva
Estudos quase-experimentais395
Quase-aleatorizado controlado
Estimação de variável instrumental
Descontinuidade de regressão
Série temporal interrompida controlada
Série temporal interrompida
Diferença
-
Fases I a IV
Aleatorizado controlado
Não-aleatorizado controlado
Autocontrolado
Cruzado
Fatorial
Campo
Comunitário
Estudos de avaliação econômica393
Análise de custo
Análise de minimização de custo
Análise de custo-utilidade
Análise de custo-efetividade
Análise de custo-benefício
Estudos de revisão392
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,