Capítulo 3 Pensamento metodológico


3.1 Metodologia da pesquisa


3.1.1 O que é metodologia da pesquisa?

  • A utilização de um vocabulário próprio — incluindo termos frequentemente usados em metodologia, epidemiologia e estatística — facilita a discussão na comunidade científica e melhora a compreensão das publicações.20,21


3.2 Relação Estatística-Metodologia


3.2.1 Qual a relação entre estatística e metodologia da pesquisa?


Mapa mental da relação entre o pensamento estatístico e o pensamento metodológico.

Figura 3.1: Mapa mental da relação entre o pensamento estatístico e o pensamento metodológico.


3.3 Pesquisa quantitativa vs. qualitativa


3.3.1 O que diferencia pesquisa qualitativa da quantitativa?

  • A divisão entre quantitativo e qualitativo é amplamente usada, mas é considerada por muitos autores como superficial ou imprecisa.23

  • Em geral, associa-se o qualitativo à exploração detalhada de casos e significados, e o quantitativo ao uso de estatística e amostras maiores.23

  • Tais associações ocultam múltiplas dimensões — por exemplo, análise estatística vs. não estatística e teste de hipóteses vs. indução — que não coincidem perfeitamente.23


3.3.2 Por que essa dicotomia pode ser problemática?

  • Ao assumir apenas duas categorias, deixamos de lado possibilidades metodológicas úteis, como indução estatística (uso de estatística para construir teorias a partir dos dados) e teste de hipóteses não estatístico (avaliação de hipóteses em estudos de caso ou comparações conceituais).23

  • A consequência é restringir artificialmente a variedade de métodos possíveis e criar mal-entendidos sobre o que cada termo implica.23


3.3.3 Qual é uma alternativa para pensar o debate?

  • Usar termos mais específicos como “dados ricos” (rich data), “abordagem estatística”, “ilustração de possibilidades”, “teste de hipóteses”, “seguimento de paradigma”.23

  • Descrever com clareza como os dados foram coletados, analisados e interpretados, sem recorrer a rótulos amplos que podem confundir ou carregar preconceitos metodológicos.23


3.4 Pesquisa de métodos mistos


3.4.1 O que é pesquisa de métodos mistos?

  • Método misto é uma metodologia que integra de forma sistemática abordagens quantitativas e qualitativas em um único estudo, com o objetivo de responder a perguntas de pesquisa de maneira mais completa.24

  • Essa integração não é apenas a justaposição de duas técnicas; trata-se de um processo intencional de “mistura” de dados e interpretações em etapas como coleta, análise e interpretação, criando uma compreensão mais robusta.24

  • A adoção de métodos mistos não deve decorrer de uma busca por completude ou sofisticação aparente, mas de coerência entre a pergunta de pesquisa, a posição epistemológica do pesquisador e as técnicas empregadas.25


3.4.2 Métodos mistos significam misturar paradigmas epistemológicos?

  • Não necessariamente. Combinações no nível paradigmático não constituem fusões reais de visões de mundo, pois paradigmas envolvem pressupostos ontológicos e epistemológicos distintos e, muitas vezes, incompatíveis.25

  • A combinação ocorre concretamente no nível técnico da pesquisa — isto é, na articulação de estratégias de amostragem, coleta e análise de dados — e não como fusão de ontologias ou epistemologias.25

  • Técnicas não são inerentemente vinculadas a paradigmas específicos; o que varia é a orientação do pesquisador e a forma como essas técnicas são empregadas e interpretadas.25


3.4.3 Quais são as principais dimensões do desenho de métodos mistos?

  • O desenho de pesquisa em métodos mistos deve considerar dimensões como propósito do estudo, orientação teórica, tempo (simultâneo ou sequencial), pontos de integração entre componentes, complexidade e se o desenho é planejado ou emergente.26

  • Entre as razões clássicas para combinar métodos estão: triangulação, complementaridade, desenvolvimento (um método orienta o outro), iniciação (explorar contradições) e expansão (ampliar o alcance da pesquisa).26


3.4.4 Quais são os delineamentos centrais em pesquisa de métodos mistos?

  • Três delineamentos principais são descritos como centrais: convergente, sequencial explanatório e sequencial exploratório.24

  • Convergente: coleta e análise de dados quantitativos e qualitativos em paralelo, com integração na interpretação.24

  • Sequencial explanatório: inicia com dados quantitativos, seguidos por qualitativos para explicar ou expandir os achados.24

  • Sequencial exploratório: inicia com dados qualitativos, seguidos por quantitativos que testam ou generalizam os resultados iniciais.24

  • Tipologias adicionais incluem delineamentos incorporados (embedded), transformativos (inspirados em perspectivas críticas, feministas ou de justiça social) e multifásicos, que combinam várias fases ao longo do tempo.26


3.5 Pesquisa exploratória vs. confirmatória


3.5.1 O que são pesquisas exploratórias e confirmatórias?

  • Confirmatória: teste planejado a priori de hipóteses com plano analítico predefinido (variáveis, modelos, critérios de exclusão, correções para múltiplos testes). Favorece controle de erro tipo I e interpretações diretas.27

  • Exploratória: testes pós-hoc motivados pelos dados, voltados a descoberta de padrões, geração/refinamento de hipóteses e checagens de plausibilidade. Pode revelar relações não antecipadas e orientar estudos futuros.27


3.5.2 Por que a dicotomia é limitada?

  • Na prática, há um continuum entre exploração e confirmação; muitos estudos combinam elementos de ambos em momentos distintos (p.ex., análises principais confirmatórias + análises de sensibilidade/descoberta).27

  • Análises exploratórias não são inerentemente inferiores: quando bem justificadas e comparando explicações alternativas, podem aumentar a rigorosidade do teste e produzir inferências informativas.27

  • A discussão contemporânea sobre a distinção entre estudos confirmatórios e exploratórios também enfatiza a necessidade de justificar o tamanho de efeito mínimo de interesse e aplicar testes severos conforme o arcabouço de falsificacionismo metodológico.28


3.5.3 Quais são as melhores práticas de transparência?

  • Rotular claramente quais análises são confirmatórias e quais são exploratórias.27

  • Pré-registrar hipóteses e plano confirmatório; documentar desvios e justificá-los.27

  • Relatar análises de sensibilidade (modelos alternativos, decisões analíticas razoáveis) para avaliar robustez.27

  • Disponibilizar dados e código sempre que eticamente possível, distinguindo scripts confirmatórios de scripts exploratórios.27


3.6 Pesquisa translacional


3.6.1 O que é pesquisa translacional?


3.7 Pré-registro


3.7.1 O que é pré-registro?

  • Pré-registro é o ato de registrar publicamente o plano de pesquisa antes da coleta de dados ou análise.REF?

  • O pré-registro é um elemento central das práticas abertas que aumentam a severidade de testes estatísticos e reduzem a flexibilidade analítica oportunista.28


3.8 Reprodutibilidade e Ciência Aberta


3.8.1 O que é reprodutibilidade?

  • Reprodutibilidade é a habilidade de se obter resultados iguais ou similares quando uma análise ou teste estatístico é repetido.2931


3.8.2 Por que reprodutibilidade é importante?

  • Analisar a reprodutibilidade pode fornecer evidências a respeito da objetividade e confiabilidade dos achados, em detrimento de terem sido obtidos devido a vieses ou ao acaso.29

  • A reprodutibilidade não é apenas uma questão metodológica, mas também ética, uma vez que pode envolver mal práticas científicas como fabricação e/ou falsificação de dados.29

  • Reprodutibilidade pode ser considerada um padrão mínimo em pesquisa científica.30


3.8.3 Como contribuir para a reprodutibilidade?

  • Disponibilize publicamente os bancos de dados, respeitando as considerações éticas vigentes (ex.: autorização dos participantes e do Comitê de Ética em Pesquisa) e internacionalmente.31

  • Produza manuscritos reprodutíveis — manuscritos executáveis ou relatórios dinâmicos — que permitem a integração do banco de dados da(s) amostra(s), do(s) script(s) de análise estatística (incluindo comentários para sua interpretação), dos pacotes ou bibliotecas utilizados, das fontes e referências bibliográficas citadas, além dos demais elementos textuais (tabelas, gráficos) - todos gerados dinamicamente.32

  • Adote delineamentos confirmatórios e justifique previamente hipóteses e tamanhos de efeito.28

  • Um plano de análise estatística bem definido contribui para a transparência, a reprodutibilidade e a credibilidade da inferência científica, reduzindo a flexibilidade analítica pós-hoc.33,34


3.9 Robustez


3.9.1 O que é robustez?


3.10 Replicabilidade


3.10.1 O que é replicabilidade?

  • Replicabilidade é a habilidade de se obter conclusões iguais ou similares quando um experimento é repetido.30,31


3.11 Generalização


3.11.1 O que é generalização?

  • Generalização refere-se à extrapolação das conclusões do estudo, observados na amostra, para a população.17


3.11.2 O que é generalização estatística?

  • É o modelo clássico em que inferências são feitas da amostra para a população-alvo, idealmente por meio de amostragem probabilística e inferência estatística.35

  • Esse modelo raramente é plenamente atendido na prática, pois a maioria dos estudos utiliza amostras de conveniência e populações acessíveis.35


3.11.3 O que é generalização analítica?

  • É o processo de extrapolar achados empíricos para conceitos, categorias ou teorias mais amplas, por meio de abstração e interpretação rigorosa.35

  • Esse modelo é especialmente relevante na pesquisa qualitativa, mas também ocorre em estudos quantitativos orientados por teoria.35


3.11.4 Quais são os mitos mais comuns sobre generalização?

  • Mito 1: Estudos quantitativos sempre utilizam amostragem aleatória.35

  • Mito 2: Pesquisa qualitativa não pode gerar generalizações.35

  • Mito 3: Transferibilidade depende apenas do leitor.35


3.11.5 Generalizações são conclusões definitivas?

  • Não, toda generalização deve ser entendida como uma “hipótese de trabalho”, sujeita a novas verificações em diferentes contextos.35

  • A generalização existe em um continuum — a questão não é “se” podemos generalizar, mas “quanto” podemos generalizar.35


Representação esquemática da generalização de uma amostra para a população.

Figura 3.2: Representação esquemática da generalização de uma amostra para a população.


3.11.6 Como a replicação contribui para a generalização?

  • Replicações deliberadas — em diferentes contextos, populações e momentos — fortalecem a robustez das inferências.35

  • A replicação pode ocorrer tanto na amostragem (variação deliberada de casos) quanto na repetição de estudos independentes.35


3.11.7 Como revisões sistemáticas e meta-análises ampliam a generalização?

  • A integração de evidências de múltiplos estudos permite examinar padrões consistentes e limites das inferências, fortalecendo conclusões generalizáveis.35

  • Metassínteses qualitativas podem produzir abstrações conceituais mais robustas do que estudos isolados.35



Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


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