Capítulo 6 Pensamento estatístico


6.1 Letramento estatístico


6.1.1 O que é letramento estatístico?

  • Letramento estatístico é a competência para compreender, interpretar e avaliar informações baseadas em dados, integrando conhecimentos técnicos e contextuais com postura crítica, crenças e atitudes que sustentem o uso ético e fundamentado da estatística.3436

  • Letramento estatístico é parte essencial do letramento informacional (fornece a capacidade de reconhecer, acessar e avaliar informações) e do letramento em dados (envolve acessar, manipular e apresentar dados de forma adequada).37

  • Letramento em informação: Capacidade de reconhecer quando a informação é necessária e de localizá-la, avaliá-la criticamente (qualidade, validade, relevância, completude, imparcialidade) e usá-la de forma eficaz e ética.37

  • Letramento em dados: Competência técnica para acessar, manipular, resumir e apresentar dados, utilizando ferramentas e métodos, com foco na preparação e organização de conjuntos de dados para análise e comunicação.37


6.1.2 Por que o letramento estatístico é importante?

  • Desenvolver pensamento crítico diante dos números é uma das habilidades mais importantes da alfabetização científica moderna.38

  • A presença dos dados no cotidiano deixou de ser restrita a decisões políticas ou relatórios técnicos: hoje, todos estamos expostos e interagimos com dados de forma constante, seja por dispositivos móveis, redes sociais ou sistemas automatizados de recomendação.39

  • Ferramentas para coletar e analisar dados estão mais acessíveis e baratas, o que amplia a possibilidade de qualquer pessoa atuar não só como consumidora, mas também como produtora de informações.39


6.1.3 Quais são exemplos de armadilhas comuns na interpretação de estatísticas?

  • Escolha do indicador: usar média ou mediana pode levar a conclusões muito diferentes sobre o mesmo fenômeno (por exemplo, renda média vs. mediana antes e depois de impostos).37

  • Confusão entre taxas e contagens: comparar números absolutos sem considerar proporções populacionais pode distorcer a realidade.37

  • Fatores de confusão: diferenças observadas podem ser explicadas por variáveis não consideradas, como idade média da população ao comparar taxas de mortalidade.37


6.2 Elementos centrais do letramento estatístico


6.2.1 Quais elementos sustentam o letramento estatístico?

  • O modelo de letramento estatístico é composto por cinco elementos de conhecimento e dois elementos disposicionais.3436

  • Competências de letramento: incluindo leitura de textos, gráficos e tabelas.34

  • Conhecimento estatístico básico: incluindo conceitos, métodos, interpretação de dados e probabilidade.34

  • Conhecimento matemático: sobre percentagens, médias e raciocínio numérico.34

  • Conhecimento de contexto/mundo: com entendimento do cenário e origem dos dados.34

  • Questões críticas: lista de worry questions para avaliar a validade da informação.34


6.2.2 Quais são os elementos que facilitam a ação estatisticamente letrada?

  • Postura crítica: propensão para questionar e analisar mensagens quantitativas.34

  • Crenças e atitudes: visão positiva sobre a capacidade de pensar estatisticamente; valorização de dados bem produzidos.34


6.2.3 Quais são os componentes do letramento estatístico?

  • Compreender quem coleta dados, por que e como essa coleta é feita.39

  • Saber interpretar dados de amostras aleatórias e não aleatórias, avaliando limitações e potencial.39

  • Conhecer e aplicar práticas de proteção de dados e direitos de propriedade sobre informações coletadas.39

  • Produzir representações descritivas (tabelas, gráficos, mapas, dashboards) para responder perguntas sobre fenômenos reais.39

  • Reconhecer a importância da proveniência e do armazenamento dos dados, bem como a necessidade de pré-processamento antes da análise.39

  • Entender fundamentos de modelagem preditiva e algoritmos, como árvores de classificação e regressão, especialmente no contexto de dados massivos (big data).39


6.2.4 Quais são os níveis de letramento estatístico?

  • Nível 1 Idiossincrático: Responde de forma muito pessoal ou confusa, usando termos de maneira incorreta ou limitada. Realiza apenas contagens diretas e leituras simples de dados.40

  • Nível 2 Informal: A interpretação é mais baseada no senso comum do que em conceitos estatísticos. Utiliza apenas alguns termos corretos e consegue fazer cálculos muito simples com tabelas, gráficos ou situações de probabilidade.40

  • Nível 3 Inconsistente: Analisa partes do problema, mas de forma irregular. Pode identificar conclusões corretas, mas sem explicá-las. Usa ideias estatísticas de maneira mais descritiva do que numérica.40

  • Nível 4 Consistente: Consegue interpretar dados e usar termos estatísticos corretamente, sem questionar a forma como as informações são apresentadas. Reconhece a variação em situações que envolvem acaso, e sabe lidar com conceitos como média, probabilidades simples e gráficos.40

  • Nível 5 Crítico: Também envolve uma postura questionadora, mas sem exigir cálculos complexos de proporção. Usa corretamente a linguagem estatística, entende o significado de termos ligados à probabilidade e percebe que os resultados podem variar.40

  • Nível 6 Crítico Matemático: A pessoa questiona e analisa as informações de forma profunda, usando cálculos e raciocínio proporcional, e reconhece que previsões sempre envolvem algum grau de incerteza e percebe detalhes sutis na forma como os dados são apresentados.40


6.3 Habilidades de letramento estatístico baseadas no pensamento crítico


6.3.1 Quais são as perguntas críticas na interpretação estatística?

  • De onde vêm os dados? Que tipo de estudo foi feito?34

  • A amostra é representativa e suficientemente grande?34

  • Os instrumentos de medição são confiáveis?34

  • As estatísticas e gráficos são apropriados e não distorcem?34

  • Há relação causal ou apenas correlação? Há informação em falta?34

  • Existem interpretações alternativas plausíveis?34


6.3.2 Quais são as habilidades de letramento estatístico?

  • Identificar: Descobrir qual é a principal afirmação de um texto ou relatório e separar o que é opinião do que é realmente evidência ou dado.41

  • Questionar: Fazer perguntas sobre os dados: de onde vieram, como foram coletados, qual o tamanho da amostra, se houve erros, se os gráficos estão claros e se o questionário foi bem feito.41

  • Julgar: Avaliar se a afirmação é bem sustentada pelos dados ou se está exagerando, por exemplo, dizendo que algo causa quando só foi encontrada uma relação.41

  • Esclarecer: Entender e explicar palavras técnicas e expressões que podem confundir, além de saber como foi feita a pesquisa e a análise.41

  • Avaliar: Decidir se a afirmação é confiável comparando com outras informações disponíveis e verificando se faz sentido.41

  • Investigar mais: Procurar informações que não foram mostradas, como quem fez a pesquisa, por que foi feita, detalhes do processo ou fatores escondidos que podem influenciar os resultados.41

  • Considerar alternativas: Pensar em outras explicações possíveis ou diferentes interpretações para os mesmos dados.41

  • Concluir: Chegar à sua própria conclusão sobre o assunto, usando as informações e o raciocínio de forma clara e bem fundamentada.41


6.4 População


6.4.1 O que é população?

  • População — ou população-alvo — refere-se ao conjunto completo sobre o qual se pretende obter informações.16,42

  • População é metodologicamente delimitada pelos critérios de inclusão e exclusão do estudo.16

  • Em estudos observacionais, inicialmente as características geográficas e/ou demográficas, por exemplo, definem a população a ser estudada.16

  • Em estudos analíticos, a população é inicialmente definida pelos objetivos da pesquisa e, posteriormente, as observações são realizadas na amostra.16


6.4.2 O que é representatividade e por que ela importa?

  • Representatividade refere-se ao grau em que uma amostra reflete com fidelidade as características da população de referência.42

  • Mesmo com uma amostra menor que o ideal, a inferência estatística ainda pode ser válida se a representatividade for mantida, embora com menor precisão e poder estatístico.42

  • Amostras não representativas comprometem a validade da inferência estatística, mesmo quando o tamanho da amostra atende aos requisitos de poder da análise.42


6.5 Amostra


6.5.1 O que é amostra?

  • Amostra é uma parte finita da população do estudo.16,42

  • Em pesquisa científica, utilizam-se dados de uma amostra de participantes (ou outras unidades de análise) para realizar inferências sobre a população.43


6.5.2 Por que usar dados de amostras?

  • Estudos com amostras, em vez de censos, são preferíveis por diversas razões, dentre elas: questões éticas; limitações orçamentárias; desafios logísticos; restrição de tempo; e tamanho populacional desconhecido.42

  • Dados de uma amostra de tamanho suficiente e características representativas podem ser utilizados para inferência sobre uma população.29

  • Em geral, amostras de tamanhos maiores possuem médias mais próximas da média populacional e menores variâncias.29


6.6 Unidade de análise


6.6.1 O que é unidade de análise?

  • A unidade de análise (ou unidade experimental) de pesquisas na área de saúde geralmente é o indivíduo.44

  • A unidade de análise também pode ser a instituição em estudos multicêntricos (ex.: hospitais, clínicas) ou um estudo publicado em meta-análise (ex.: ensaios clínicos).44


6.6.2 Por que identificar a unidade de análise de um estudo?

  • É fundamental identificar corretamente a unidade de análise para evitar inflação do tamanho da amostra, violações de suposições dos testes de hipótese e resultados espúrios em testes de hipótese.44,45


6.7 Amostragem


6.7.1 O que é amostragem?

  • Amostragem é o processo pelo qual se seleciona uma parte de uma população para constituir a amostra que será efetivamente estudada.42


Representação esquemática da amostragem: seleção de uma população para a amostra.

Figura 6.1: Representação esquemática da amostragem: seleção de uma população para a amostra.


6.7.2 Quais métodos de amostragem da população são usados?

  • O método de amostragem é geralmente definido pelas condições de viabilidade do estudo, no que diz respeito a acesso aos participantes, ao tempo de execução e aos custos envolvidos, entre outras.16

  • Amostragem não-probabilística ou intencional: Bola de neve, Conveniência, Participantes encaminhados, Proposital.16,42

  • Amostragem probabilística: Simples, Sistemática, Multiestágio, Estratificada, Agregada.16,42


6.7.3 O que é erro de amostragem?

  • Erro de amostragem é a variação natural entre os resultados obtidos a partir de uma amostra e os resultados que seriam obtidos caso toda a população fosse examinada.42

  • Erro de amostragem reflete o grau de incerteza inerente à generalização de uma amostra para a população.42


Representação esquemática do erro de amostragem: seleção de várias amostras independentes de uma população.

Figura 6.2: Representação esquemática do erro de amostragem: seleção de várias amostras independentes de uma população.


Representação esquemática da amostragem de uma população para a amostra.

Figura 6.3: Representação esquemática da amostragem de uma população para a amostra.


6.8 Reamostragem


6.8.1 O que é reamostragem?

  • Reamostragem é um procedimento que cria vários conjuntos de dados sorteados a partir de um conjunto de dados real — a amostra da população — sem a necessidade de fazer suposições sobre os dados e suas distribuições.43


6.8.2 Por que utilizar reamostragem?

  • Quando se dispõe de dados de apenas 1 amostra, as diversas suposições que são feitas podem não ser atingidas.43

  • Procedimentos de reamostragem produzem um conjunto de observações escolhidas aleatoriamente da amostra, igualmente representativo da população original.43

  • Procedimentos de reamostragem permitem estimar o erro-padrão e intervalos de confiança sem a necessidade de tais suposições, sendo, portanto, um conjunto de procedimentos não-paramétricos.43


6.8.3 Quais métodos de reamostragem podem ser realizados?

  • Bootstrap: Cada iteração cria uma nova amostra do mesmo tamanho da original a partir de seleções aleatórias das observações reais.43

  • Com bootstrap, algumas observações podem aparecer mais de uma vez, enquanto outras podem não ser selecionadas.43


Representação esquemática da reamostragem de uma amostra.

Figura 6.4: Representação esquemática da reamostragem de uma amostra.


6.9 Subamostragem


6.9.1 O que é subamostragem?


Representação esquemática da subamostragem de uma amostra.

Figura 6.5: Representação esquemática da subamostragem de uma amostra.


6.10 Superamostragem


6.10.1 O que é superamostragem?


Representação esquemática da superamostragem de uma população.

Figura 6.6: Representação esquemática da superamostragem de uma população.



Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

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