Capítulo 29 Análise causal
29.1 Análise causal
29.1.1 O que é análise causal?
Análise causal é usada para explicar a relação entre causa e efeito em um conjunto de dados, respondendo a perguntas do tipo “por quê?”.290
Análise causal implica em contrafactual, no sentido de que a análise causal é baseada na comparação entre o que realmente aconteceu e o que teria acontecido se uma ou mais variáveis tivessem sido diferentes.290
Existe uma lacuna entre provar causalidade (requer experimentos com manipulação de efeitos) e interpretar parâmetros como efeitos causais (baseado em teoria sólida e experimentos prévios).310
29.2 Inferência causal em estudos observacionais
29.2.1 Como diferenciar associação de causalidade?
Associação descreve que duas variáveis variam juntas, mas não garante que uma afete a outra.273
Causalidade exige evidências (diretas ou indiretas) de que modificar a variável de exposição altera o desfecho.273
29.2.2 Quais critérios ajudam a sustentar inferência causal?
Existência de um mecanismo plausível.273
Controle adequado de confundidores (medidos e não medidos).273
Consistência com literatura prévia e plausibilidade do tamanho de efeito.273
Avaliação de alternativas explicativas (ex.: viés de seleção, mediadores não controlados).273
29.2.3 Como lidar com confundimento residual?
Reconhecer que modelos multivariados e escores de propensão não eliminam completamente o confundimento.273
Comparar características basais entre grupos para identificar diferenças persistentes.273
Considerar análises de sensibilidade, mas com cautela na interpretação.273
29.3 Critérios de Hill para inferência causal
29.3.1 Quais são os nove critérios?
Temporalidade: A exposição deve preceder o desfecho. Único critério considerado essencial por Hill.311
Força da associação: Associações mais fortes são mais prováveis de refletir causalidade.311
Consistência: A associação é observada em diferentes estudos, populações e contextos.311
Especificidade: Uma exposição leva a um efeito específico (embora nem sempre aplicável).311
Gradiente biológico (dose–resposta): Aumentos na exposição acompanham aumentos no risco.311
Plausibilidade biológica: Compatibilidade com o conhecimento científico da época.311
Coerência: A associação não deve contradizer a história natural ou biologia da doença.311
Evidência experimental: Reduções na exposição devem reduzir o risco observado.311
Analogia: Comparação com relações causais já conhecidas.311
29.3.2 Hill propôs um checklist rígido?
- Nenhum critério, isoladamente, prova ou refuta causalidade. Devem ser usados como guias para reflexão científica, não como requisitos obrigatórios.311
29.4 Críticas contemporâneas aos critérios de Hill
29.4.1 Qual critério é indispensável?
- A temporalidade: a exposição deve preceder o desfecho. Mesmo assim, observar uma ordem temporal inversa apenas invalida a hipótese em casos específicos, não em todos.312
29.4.2 A força da associação garante causalidade?
- Não. Associações fortes podem ainda ser não-causais e associações fracas podem ser causais.312
29.4.3 A consistência é indispensável?
Não. A ausência de consistência não elimina causalidade, pois alguns efeitos só se manifestam em condições específicas (ex.: transfusão só causa HIV se o vírus estiver presente).312
A consistência ajuda apenas a afastar a hipótese de viés ou erro em um estudo isolado:contentReference.312
29.4.4 O critério da especificidade é válido?
- Não. É considerado um critério inválido e enganoso. Uma causa pode ter múltiplos efeitos (tabagismo → vários desfechos) e um efeito pode ter múltiplas causas.312
29.4.5 O gradiente biológico (dose–resposta) é confiável?
- Nem sempre. Pode ser distorcido por confundimento. A ausência de gradiente não invalida a causalidade.312
29.4.6 A plausibilidade e a coerência são objetivas?
- Não. Ambas são fortemente dependentes do conhecimento científico da época. O que parecia implausível no passado depois se confirmou como verdadeiro.312
29.4.7 Evidência experimental é decisiva?
- Pode ser útil, mas raramente está disponível em epidemiologia. Mesmo quando disponível, pode ter explicações alternativas.312
29.4.8 Analogia é útil?
- Tem pouco valor. Analogias podem sempre ser inventadas e, na prática, funcionam mais como fonte de hipóteses do que como prova.312
29.5 Visão atual sobre os critérios de Hill
29.5.1 Como os critérios de Hill foram revisitados?
- Estudos recentes propõem integrá-los a três abordagens modernas: DAG (destacam estrutura causal e confundimento), modelos de causa suficiente (enfatizam multifatorialidade) e GRADE (orienta sobre a certeza da evidência em corpos de estudos).313
29.5.2 Quais mudanças na interpretação?
Temporalidade e experimentos: seguem centrais, mas analisados com mais sofisticação.313
Força da associação: relevante, mas não garante causalidade (pode haver confundimento).313
Consistência: pensada como transportabilidade entre populações.313
Especificidade: pouco útil hoje; substituída por falsificação (controles negativos).313
Dose–resposta: pode ser espúria, cautela é necessária.313
Coerência e analogia: utilidade limitada.313
29.7 Diagrama acíclico direcionado (DAG)
29.7.1 O que são diagramas acíclicos direcionados?
Diagramas acíclicos direcionados são representações gráficas de relações causais entre variáveis, usando nós (variáveis) e arestas direcionadas (relações causais).314
Diagramas acíclicos direcionados ajudam a identificar confundidores, mediadores e colisores, orientando a seleção de variáveis para ajuste em análises estatísticas.314
Diagramas acíclicos direcionados não permitem ciclos ou alças, refletindo a natureza unidirecional das relações causais.314
29.7.2 Quais são os padrões causais básicos?
Independência: duas variáveis não têm relação causal direta ou indireta.314
Cadeia: uma variável causa outra, que por sua vez causa uma terceira (X → M → Y).314
Garfo: uma variável causa duas outras (X ← Z → Y), onde Z é um confundidor.314
Colisor: duas variáveis causam uma terceira (X → Z ← Y), onde Z é um colisor.314
29.8 Linguagem causal em estudos observacionais
29.8.1 Quais são as principais recomendações para relatar causalidade?
Usar termos causais de forma explícita e criteriosa (“causa”, “efeito”, “reduzir”, “aumentar”), evitando expressões ambíguas como “fator de risco”.273
Contextualizar a causalidade em termos práticos, explicando por que identificar a causa é relevante para intervenções.273
Declarar claramente na introdução se existe hipótese causal, justificando quando não houver.273
Descrever caminhos causais (mediadores, confundidores, colisores) em texto claro ou com diagramas.273
Justificar a seleção de covariáveis com base nas relações causais previstas.273
Avaliar o controle de confundimento, reconhecendo limitações e possível confundimento residual.273
Discutir as inferências causais considerando estimativas, vieses e plausibilidade biológica.273
Indicar recomendações específicas para pesquisas futuras ou prática clínica baseadas nas conclusões causais.273
Figura 29.1: Padrões causais básicos: independência, cadeia, garfo e colisor.
O pacote dagitty315 fornece a função dagitty para criar um objeto grafo a partir de uma descrição textual.
O pacote ggdag316 fornece a função ggdag para criar figuras de grafos.
O pacote performance317 fornece a função check_dag para criar, verificar e visualizar os modelos em grafos.
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,