Capítulo 28 Análise causal


28.1 Análise causal


28.1.1 O que é análise causal?

  • Análise causal é usada para explicar a relação entre causa e efeito em um conjunto de dados, respondendo a perguntas do tipo “por quê?”.277

  • Análise causal implica em contrafactual, no sentido de que a análise causal é baseada na comparação entre o que realmente aconteceu e o que teria acontecido se uma ou mais variáveis tivessem sido diferentes.277

  • Existe uma lacuna entre provar causalidade (requer experimentos com manipulação de efeitos) e interpretar parâmetros como efeitos causais (baseado em teoria sólida e experimentos prévios).308


28.2 Inferência causal em estudos observacionais


28.2.1 Como diferenciar associação de causalidade?

  • Associação descreve que duas variáveis variam juntas, mas não garante que uma afete a outra.271

  • Causalidade exige evidências (diretas ou indiretas) de que modificar a variável de exposição altera o desfecho.271


28.2.2 Quais critérios ajudam a sustentar inferência causal?

  • Existência de um mecanismo plausível.271

  • Controle adequado de confundidores (medidos e não medidos).271

  • Consistência com literatura prévia e plausibilidade do tamanho do efeito.271

  • Avaliação de alternativas explicativas (ex.: viés de seleção, mediadores não controlados).271


28.2.3 Como lidar com confundimento residual?

  • Reconhecer que modelos multivariados e escores de propensão não eliminam completamente o confundimento.271

  • Comparar características basais entre grupos para identificar diferenças persistentes.271

  • Considerar análises de sensibilidade, mas com cautela na interpretação.271


28.3 Critérios de Hill para inferência causal


28.3.1 Quais são os nove critérios?

  • Temporalidade: A exposição deve preceder o desfecho. Único critério considerado essencial por Hill.309

  • Força da associação: Associações mais fortes são mais prováveis de refletir causalidade.309

  • Consistência: A associação é observada em diferentes estudos, populações e contextos.309

  • Especificidade: Uma exposição leva a um efeito específico (embora nem sempre aplicável).309

  • Gradiente biológico (dose–resposta): Aumentos na exposição acompanham aumentos no risco.309

  • Plausibilidade biológica: Compatibilidade com o conhecimento científico da época.309

  • Coerência: A associação não deve contradizer a história natural ou biologia da doença.309

  • Evidência experimental: Reduções na exposição devem reduzir o risco observado.309

  • Analogia: Comparação com relações causais já conhecidas.309


28.3.2 Hill propôs um checklist rígido?

  • Nenhum critério, isoladamente, prova ou refuta causalidade. Devem ser usados como guias para reflexão científica, não como requisitos obrigatórios.309


28.4 Críticas contemporâneas aos critérios de Hill


28.4.1 Qual critério é indispensável?

  • A temporalidade: a exposição deve preceder o desfecho. Mesmo assim, observar uma ordem temporal inversa apenas invalida a hipótese em casos específicos, não em todos.310


28.4.2 A força da associação garante causalidade?

  • Não. Associações fortes podem ainda ser não-causais e associações fracas podem ser causais.310


28.4.3 A consistência é indispensável?

  • Não. A ausência de consistência não elimina causalidade, pois alguns efeitos só se manifestam em condições específicas (ex.: transfusão só causa HIV se o vírus estiver presente).310

  • A consistência ajuda apenas a afastar a hipótese de viés ou erro em um estudo isolado:contentReference.310


28.4.4 O critério da especificidade é válido?

  • Não. É considerado um critério inválido e enganoso. Uma causa pode ter múltiplos efeitos (tabagismo → vários desfechos) e um efeito pode ter múltiplas causas.310


28.4.5 O gradiente biológico (dose–resposta) é confiável?

  • Nem sempre. Pode ser distorcido por confundimento. A ausência de gradiente não invalida a causalidade.310


28.4.6 A plausibilidade e a coerência são objetivas?

  • Não. Ambas são fortemente dependentes do conhecimento científico da época. O que parecia implausível no passado depois se confirmou como verdadeiro.310


28.4.7 Evidência experimental é decisiva?

  • Pode ser útil, mas raramente está disponível em epidemiologia. Mesmo quando disponível, pode ter explicações alternativas.310


28.4.8 Analogia é útil?

  • Tem pouco valor. Analogias podem sempre ser inventadas e, na prática, funcionam mais como fonte de hipóteses do que como prova.310


28.5 Visão atual sobre os critérios de Hill


28.5.1 Como os critérios de Hill foram revisitados?

  • Estudos recentes propõem integrá-los a três abordagens modernas: DAG (destacam estrutura causal e confundimento), modelos de causa suficiente (enfatizam multifatorialidade) e GRADE (orienta sobre a certeza da evidência em corpos de estudos).311


28.5.2 Quais mudanças na interpretação?

  • Temporalidade e experimentos: seguem centrais, mas analisados com mais sofisticação.311

  • Força da associação: relevante, mas não garante causalidade (pode haver confundimento).311

  • Consistência: pensada como transportabilidade entre populações.311

  • Especificidade: pouco útil hoje; substituída por falsificação (controles negativos).311

  • Dose–resposta: pode ser espúria, cautela é necessária.311

  • Coerência e analogia: utilidade limitada.311


28.6 Efeitos diretos e indiretos


28.6.1 Como distinguir efeitos diretos de indiretos?

  • Um efeito direto ocorre quando uma variável influencia outra sem mediação.49

  • Um efeito indireto acontece quando a influência é mediada por variáveis intermediárias.49


28.7 Diagrama acíclico direcionado (DAG)


28.7.1 O que são diagramas acíclicos direcionados?

  • DAGs são representações gráficas de relações causais entre variáveis, usando nós (variáveis) e arestas direcionadas (relações causais).312

  • DAGs ajudam a identificar confundidores, mediadores e colisores, orientando a seleção de variáveis para ajuste em análises estatísticas.312

  • DAGs são acíclicos, ou seja, não permitem ciclos ou loops, refletindo a natureza unidirecional das relações causais.312


28.7.2 Quais são os padrões causais básicos?

  • Independência: duas variáveis não têm relação causal direta ou indireta.312

  • Cadeia: uma variável causa outra, que por sua vez causa uma terceira (X → M → Y).312

  • Garfo: uma variável causa duas outras (X ← Z → Y), onde Z é um confundidor.312

  • Colisor: duas variáveis causam uma terceira (X → Z ← Y), onde Z é um colisor.312


28.7.3 Qual o papel dos caminhos causais?

  • Ajudam a identificar quais variáveis precisam ser medidas e ajustadas.271

  • Evitam ajustes indevidos (ex.: em colisores), que podem introduzir viés.271


28.8 Linguagem causal em estudos observacionais


28.8.1 Quais são as principais recomendações para relatar causalidade?

  • Usar termos causais de forma explícita e criteriosa (“causa”, “efeito”, “reduzir”, “aumentar”), evitando expressões ambíguas como “fator de risco”.271

  • Contextualizar a causalidade em termos práticos, explicando por que identificar a causa é relevante para intervenções.271

  • Declarar claramente na introdução se existe hipótese causal, justificando quando não houver.271

  • Descrever caminhos causais (mediadores, confundidores, colisores) em texto claro ou com diagramas.271

  • Justificar a seleção de covariáveis com base nas relações causais previstas.271

  • Avaliar o controle de confundimento, reconhecendo limitações e possível confundimento residual.271

  • Discutir as inferências causais considerando estimativas, vieses e plausibilidade biológica.271

  • Indicar recomendações específicas para pesquisas futuras ou prática clínica baseadas nas conclusões causais.271


Padrões causais básicos: independência, cadeia, garfo e colisor.

Figura 28.1: Padrões causais básicos: independência, cadeia, garfo e colisor.






Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

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