Capítulo 68 Ensaios quase-experimentais


68.1 Características


68.1.1 Quais são as características de ensaios quase-experimentais?

  • Ensaios quase-experimentais são delineamentos utilizados para avaliar o efeito de intervenções quando a aleatorização não é possível, prática ou ética.379

  • Esses delineamentos buscam estimar efeitos causais por meio da comparação entre períodos, grupos ou tendências temporais, utilizando estratégias analíticas para aproximar um cenário contrafactual.379

  • Em estudos quase-experimentais, a intervenção geralmente ocorre em condições do mundo real, frequentemente envolvendo políticas públicas, programas populacionais ou mudanças organizacionais.379

  • A validade causal em estudos quase-experimentais depende fortemente da qualidade do delineamento, da disponibilidade de dados longitudinais e do controle adequado de fatores confundidores.379


68.2 Séries temporais interrompidas


68.2.1 O que são séries temporais interrompidas?

  • Séries temporais interrompidas (interrupted time series, ITS) representam um dos delineamentos quase-experimentais mais robustos para avaliação de intervenções implementadas em um momento claramente definido no tempo.379

  • Séries temporais interrompidas utilizam observações repetidas de um desfecho ao longo do tempo para estimar tendências anteriores à intervenção e compará-las ao comportamento observado após sua implementação.379

  • Nesse delineamento, a tendência observada antes da intervenção é utilizada para construir um cenário contrafactual, representando a evolução esperada do desfecho caso a intervenção não tivesse ocorrido.379

  • A comparação entre a tendência observada após a intervenção e o cenário contrafactual permite avaliar possíveis mudanças atribuíveis à intervenção.379

  • Estudos de séries temporais interrompidas são particularmente úteis para avaliação de políticas públicas, legislações, campanhas populacionais e intervenções implementadas em larga escala.379


Tabela 68.1: Base de dados simulada para análise de série temporal interrompida. A tabela apresenta as primeiras e últimas linhas da base, com um resumo do período intermediário indicado por reticências.
Month Time Intervention Time After Outcome
2018-01-01 1 0 0 102.258097413791
2018-02-01 2 0 0 107.007493272342
2018-03-01 3 0 0 115.734833256597
2018-04-01 4 0 0 109.210236795974
2018-05-01 5 0 0 107.017150940644
2023-08-01 68 1 32 89.6838136766465
2023-09-01 69 1 33 91.7890698715189
2023-10-01 70 1 34 97.0721355122331
2023-11-01 71 1 35 89.5358753357739
2023-12-01 72 1 36 85.9633244974367
Análise de série temporal interrompida utilizando regressão segmentada. Linha azul: valores preditos pelo modelo. Linha tracejada: cenário contrafactual. Linha pontilhada: momento da intervenção.

Figura 68.1: Análise de série temporal interrompida utilizando regressão segmentada. Linha azul: valores preditos pelo modelo. Linha tracejada: cenário contrafactual. Linha pontilhada: momento da intervenção.


68.2.2 O que são séries temporais interrompidas controladas?

  • Séries temporais interrompidas controladas incluem um grupo ou desfecho controle não exposto à intervenção para reduzir o impacto de confundidores variantes no tempo.379,380

  • A inclusão de controles fortalece a inferência causal ao permitir distinguir mudanças atribuíveis à intervenção de tendências temporais externas.379

  • Grupos controle devem apresentar comportamento temporal semelhante ao grupo exposto antes da intervenção.380

  • Desfechos controle podem ser utilizados quando não existe um grupo populacional comparável disponível.379


68.2.3 Quando utilizar séries temporais interrompidas?

  • Séries temporais interrompidas são apropriadas quando a intervenção ocorre em um momento claramente identificável e existem observações repetidas antes e depois da implementação.379

  • O delineamento é especialmente útil quando ensaios experimentais aleatorizados não são possíveis, como em avaliações retrospectivas de políticas públicas ou intervenções implementadas para toda a população.379

  • Desfechos com resposta relativamente rápida à intervenção são mais adequados para ITS, pois facilitam a identificação temporal do efeito.379

  • A utilização de dados rotineiros longitudinais favorece a aplicação do delineamento, especialmente quando há número suficiente de observações antes e depois da intervenção.379


68.2.4 Como selecionar o modelo em séries temporais interrompidas?

  • A seleção do modelo é uma etapa central em estudos de séries temporais interrompidas, pois o efeito estimado depende da forma como o contrafactual e o impacto da intervenção são especificados.538

  • O contrafactual deve representar a trajetória esperada do desfecho caso a intervenção não tivesse ocorrido, sendo geralmente construído pela extrapolação da tendência pré-intervenção.538

  • A definição inadequada do contrafactual pode levar à superestimação ou subestimação do efeito da intervenção.538

  • A escolha do período pré-intervenção deve considerar qualidade dos dados, mudanças nos sistemas de registro, intervenções anteriores e eventos externos capazes de alterar a tendência do desfecho.538

  • O modelo de impacto deve ser definido a priori, com base no conhecimento substantivo sobre a intervenção e o desfecho, evitando a escolha retrospectiva do modelo que melhor se ajusta aos dados.538

  • O impacto da intervenção pode ser abrupto, gradual, imediato, tardio, transitório ou sujeito a enfraquecimento ao longo do tempo.538

  • Quando há incerteza sobre a especificação do modelo, análises de sensibilidade previamente definidas podem ser utilizadas para avaliar a robustez dos resultados.538

  • Modelos muito flexíveis ou escolhidos de forma puramente orientada pelos dados aumentam o risco de identificar efeitos espúrios atribuídos à intervenção.538

  • Os estudos devem relatar de forma transparente as decisões de modelagem, justificando o período analisado, a forma da tendência, os confundidores variantes no tempo, a sazonalidade e o modelo de impacto escolhido.538


68.2.5 O que é o modelo contrafactual em séries temporais interrompidas?

  • O cenário contrafactual corresponde à trajetória esperada do desfecho caso a intervenção não tivesse ocorrido.379

  • Em ITS, o contrafactual é geralmente estimado a partir da tendência observada no período pré-intervenção.379

  • A inferência sobre o efeito da intervenção é baseada na diferença entre os valores observados após a intervenção e os valores esperados segundo o cenário contrafactual.379

  • A especificação inadequada do modelo contrafactual pode levar à interpretação incorreta do efeito da intervenção.379


68.2.6 O que representam mudanças de nível e inclinação em séries temporais interrompidas?

  • Mudança de nível representa uma alteração imediata no desfecho após a intervenção.379

  • Mudança de inclinação representa uma alteração gradual na tendência temporal após a intervenção.379

  • Intervenções podem produzir apenas mudança de nível, apenas mudança de inclinação ou ambas simultaneamente.379

  • A interpretação do efeito depende do modelo de impacto especificado para a intervenção.379


68.2.7 Por que especificar o modelo de impacto a priori?

  • A especificação do modelo de impacto antes da análise reduz o risco de interpretações espúrias baseadas em flutuações aleatórias dos dados.379

  • A escolha do modelo de impacto deve considerar o conhecimento prévio sobre o mecanismo da intervenção e o tempo esperado para manifestação do efeito.379

  • A seleção do modelo baseada apenas na inspeção visual dos resultados aumenta a probabilidade de conclusões artefatuais sobre o efeito da intervenção.379


68.2.8 Como avaliar heterogeneidade de efeito em séries temporais interrompidas?

  • Termos de interação podem ser incorporados aos modelos ITS para avaliar se o efeito da intervenção varia entre subgrupos populacionais.380

  • Interações entre variáveis de interesse e os componentes da ITS permitem investigar diferenças no nível basal, na mudança imediata e na alteração da tendência temporal.380

  • Características individuais, institucionais ou regionais podem modificar o efeito observado da intervenção.380

  • Modelos estratificados e análises multinível podem ser utilizados para lidar com heterogeneidade entre unidades observacionais.380


68.2.9 Quais são os principais pressupostos de séries temporais interrompidas?

  • O delineamento assume que a tendência observada antes da intervenção continuaria inalterada na ausência da intervenção.380

  • O modelo assume ausência de eventos externos que modifiquem sistematicamente a tendência temporal durante o período pós-intervenção.380

  • A linearidade das tendências temporais deve ser avaliada antes da modelagem, especialmente em análises de regressão segmentada.380

  • A presença de mudanças graduais na população ao longo do tempo pode introduzir viés quando não adequadamente controlada.380


68.2.10 Quais são as limitações de modelos ITS simples?

  • Modelos ITS básicos frequentemente assumem tendências lineares pré-intervenção.380

  • Modelos simples podem não controlar adequadamente mudanças nas características da população ao longo do tempo.380

  • A ausência de grupos ou desfechos controle dificulta a distinção entre efeitos da intervenção e eventos externos concorrentes.380

  • A utilização de poucos pontos temporais antes da intervenção pode dificultar a avaliação da linearidade da tendência pré-intervenção.380


68.2.11 Quais são as principais ameaças à validade em séries temporais interrompidas?

  • Estudos ITS podem ser afetados por confundidores variantes no tempo, especialmente fatores que modificam simultaneamente o desfecho e o período pós-intervenção.379

  • Eventos concorrentes à intervenção podem dificultar a atribuição causal do efeito observado.379

  • Mudanças nos sistemas de registro ou coleta de dados ao longo do tempo podem introduzir viés na estimativa do efeito.379

  • A ausência de controle adequado para tendências temporais e sazonalidade pode produzir estimativas incorretas da associação entre intervenção e desfecho.379


68.2.12 O que é autocorrelação em séries temporais interrompidas?

  • Autocorrelação ocorre quando observações consecutivas da série temporal são mais semelhantes entre si do que observações mais distantes no tempo.379

  • A presença de autocorrelação viola a suposição de independência das observações em modelos de regressão convencionais.379

  • A autocorrelação residual deve ser investigada por meio de análise gráfica dos resíduos e funções de autocorrelação parcial.379

  • Métodos como regressão de Prais-Winsten e modelos ARIMA podem ser utilizados para ajustar autocorrelação residual em séries temporais.379


68.2.13 Como controlar sazonalidade em séries temporais interrompidas?

  • Muitos desfechos apresentam padrões sazonais que podem influenciar a tendência temporal observada.379

  • A sazonalidade pode ser controlada utilizando estratificação temporal, funções seno-cosseno (Fourier terms) ou splines.379

  • O controle da sazonalidade reduz o risco de confundimento temporal e melhora a validade das estimativas do efeito da intervenção.379


68.3 Diretrizes para redação


68.3.1 Quais são as diretrizes para redação de ensaios quase-experimentais?

  • Visite a rede Enhancing the QUAlity and Transparency Of health Research (EQUATOR Network) para encontrar diretrizes específicas.

  • Guidelines for reporting non-randomised studies.539



Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

379.
Lopez Bernal J, Cummins S, Gasparrini A. Interrupted time series regression for the evaluation of public health interventions: a tutorial. International Journal of Epidemiology. junho 2016:dyw098. doi:10.1093/ije/dyw098
380.
Kontopantelis E, Doran T, Springate DA, Buchan I, Reeves D. Regression based quasi-experimental approach when randomisation is not an option: interrupted time series analysis. BMJ. 2015;350(jun09 5):h2750–h2750. doi:10.1136/bmj.h2750
538.
Lopez Bernal J, Soumerai S, Gasparrini A. A methodological framework for model selection in interrupted time series studies. Journal of Clinical Epidemiology. 2018;103:82–91. doi:10.1016/j.jclinepi.2018.05.026
539.
Reeves BC, Gaus W. Guidelines for Reporting Non-Randomised Studies. Complementary Medicine Research. 2004;11(1):46–52. doi:10.1159/000080576