Capítulo 55 n-de-1


55.1 Ensaio n-de-1


55.1.1 O que são ensaios n-de-1?

  • Ensaios n-de-1 são delineamentos experimentais em que um único paciente recebe, em períodos alternados, duas ou mais intervenções (ex.: tratamento A e tratamento B).439

  • Cada ciclo é formado por dois períodos (AB ou BA), cuja ordem é randomizada, garantindo controle temporal e redução de vieses.439

  • O foco está na comparação intraindivíduo, permitindo avaliar diretamente se o paciente em questão responde melhor a uma intervenção.439


55.1.2 Quando é apropriado conduzir ensaios n-de-1?

  • Doenças crônicas estáveis, em que o desfecho pode ser observado repetidamente.439

  • Condições raras ou com grande heterogeneidade de resposta entre pacientes.439

  • Situações clínicas de incerteza, quando se deseja personalizar o tratamento.439

  • Ensaios n-de-1 devem ser utilizados principalmente para apoiar decisões clínicas sobre o cuidado de um paciente individual, e não para estimar efeitos médios em populações.440

  • Eles são uma opção viável quando se lidam com intervenções de muito baixo volume, como em doenças raras ou ultrarraras, nas quais ensaios tradicionais são inviáveis.440

  • Uma ampla variedade de tecnologias em saúde pode ser avaliada por ensaios n-de-1, incluindo medicamentos, dispositivos, intervenções dietéticas e comportamentais, desde que atendam aos critérios de início de efeito e ausência de efeitos residuais prolongados.440

  • Para que uma tecnologia seja adequada a um ensaio n-de-1, seu efeito deve surgir em um intervalo de tempo que possa ser medido dentro de um período de estudo factível.440

  • Tecnologias avaliadas em ensaios n-de-1 não devem apresentar efeitos de “carryover” prolongados; quando isso não é possível, é necessário empregar estratégias adequadas de washout.440

  • Ensaios n-de-1 são particularmente úteis para avaliar tecnologias caras ou com efeitos adversos relevantes, permitindo verificar se, para aquele paciente específico, os benefícios superam os riscos e os custos.440

  • Esses ensaios podem responder perguntas sobre se o tratamento funciona, se funciona melhor do que alternativas existentes, qual tratamento é mais adequado para um paciente específico ou se a resposta ao tratamento varia entre indivíduos.440


55.1.3 Qual a relevância dos ensaios n-de-1?

  • Os ensaios n-de-1 permitem decisões clínicas personalizadas e baseadas em evidência direta.439

  • Quando combinados, podem gerar estimativas comparáveis às de ensaios clínicos convencionais, mantendo o foco centrado no paciente.439

  • Representam uma alternativa metodológica robusta para cenários de incerteza terapêutica.439


55.2 Aspectos metodológicos


55.2.1 Quais são os principais aspectos do delineamento de ensaios n-de-1?

  • A escolha do desfecho primário deve ser guiada diretamente pela pergunta clínica que o ensaio pretende responder.440

  • Sempre que possível, recomenda-se combinar desfechos relatados pelo paciente com medidas mais objetivas, especialmente em ensaios envolvendo tratamentos caros ou de maior risco.440

  • Ensaios n-de-1 podem avaliar não apenas eficácia, mas também outros desfechos relevantes para o paciente, como efeitos adversos, qualidade de vida e preferências pessoais.440

  • O comparador do tratamento deve ser escolhido de acordo com a pergunta de pesquisa, podendo ser placebo, tratamento ativo ou cuidado padrão.440

  • O foco do tratamento em um ensaio n-de-1 pode ser a doença em si, sintomas específicos, efeitos colaterais ou a satisfação do paciente com a intervenção.440

  • Na prática, a maioria dos ensaios n-de-1 compara duas tecnologias; a comparação de três ou mais aumenta significativamente a complexidade operacional.440

  • O número de períodos do estudo deve equilibrar precisão e viabilidade, considerando duração total do ensaio e carga para o paciente.440

  • O cegamento deve ser utilizado sempre que viável; quando não for possível, outras formas de minimizar viés, como avaliação cega de desfechos, são recomendadas.440

  • A randomização da sequência de tratamentos é recomendada, preferencialmente em blocos, para reduzir vieses e efeitos relacionados ao tempo.440

  • Análises interinas podem ser consideradas, permitindo interromper o ensaio precocemente caso haja evidência suficiente de benefício ou dano.440

  • Quando há risco de efeitos residuais entre períodos, devem ser empregados washout tradicionais ou washout ativo, sempre ponderando rigor metodológico e segurança do paciente.440

  • A interpretação dos resultados não deve se basear apenas em significância estatística; a relevância clínica do efeito é essencial.440

  • A análise central de um ensaio n-de-1 é a análise intra-paciente, que avalia se houve um efeito clinicamente importante para aquele indivíduo.440

  • Quando vários ensaios n-de-1 são conduzidos, seus resultados podem ser combinados para estimar efeitos médios e avaliar a consistência entre pacientes.440

  • O envolvimento de pacientes e do público é fundamental em todas as etapas do ensaio n-de-1, incluindo planejamento, definição de desfechos, interpretação, disseminação e implementação dos resultados.440


55.2.2 Como é feita a randomização?

  • A ordem dos tratamentos em cada ciclo é definida aleatoriamente (ex.: AB, BA, AB…).439

  • A randomização reduz viés de período e efeito de expectativa.439


55.2.3 Quais perguntas de inferência podem ser respondidas?

  • Q1: Há efeito do tratamento dentro dos ciclos de um paciente?439

  • Q2: Qual é o efeito médio observado nos pacientes estudados?439

  • Q3: O efeito é homogêneo ou heterogêneo entre pacientes?439

  • Q4: Qual é o efeito específico em cada paciente individual?439

  • Q5: Qual é o efeito esperado em populações semelhantes?439


55.3 Análise de dados


55.3.1 Como são feitas as análises?

  • Comparações intraindivíduo (testes pareados ou estimativas de efeito médio por paciente).439

  • Combinação de múltiplos n-de-1 por meio de meta-análises ou modelos mistos para inferências em nível populacional.439


55.3.2 Como os dados de ensaios n-de-1 podem ser visualizados?

  • Trellis plot, no qual cada painel representa um paciente e cada ponto corresponde a um ciclo, plotando-se o desfecho sob B no eixo Y e sob A no eixo X. A linha de identidade indica igualdade entre os tratamentos; a concentração de pontos acima e à esquerda dessa linha sugere maior efeito do tratamento B.439


Trellis plot para dados simulados de ensaio n-de-1. Cada painel representa um paciente, cada ponto azul um ciclo, e o asterisco vermelho indica a média dos ciclos para aquele paciente. A linha tracejada representa a linha de identidade (igualdade entre tratamentos).

Figura 55.1: Trellis plot para dados simulados de ensaio n-de-1. Cada painel representa um paciente, cada ponto azul um ciclo, e o asterisco vermelho indica a média dos ciclos para aquele paciente. A linha tracejada representa a linha de identidade (igualdade entre tratamentos).



55.3.3 Quais métodos estatísticos são usados na análise?

  • A hipótese nula assume ausência de diferença entre os tratamentos para todos os pacientes, implicando independência das diferenças entre A e B e permitindo a agregação dos dados entre ciclos e indivíduos.439

  • Os dados são reduzidos a diferenças emparelhadas por ciclo e paciente, resultando em uma única amostra de diferenças.439

  • As diferenças observadas podem ser analisadas por meio de um teste t de uma amostra ou Mann-Whitney-Wilcoxon.439


55.4 Abordagem meta-analítica


55.4.1 Como um conjunto de ensaios n-de-1 pode ser analisado conjuntamente?

  • Ele pode ser tratado de forma análoga a uma meta-análise de ensaios clínicos independentes, utilizando métodos e softwares padrão com pequenas adaptações.439

  • Devido ao pequeno número de graus de liberdade por paciente, a estimativa ingênua de variâncias é inadequada, sendo necessário assumir variância intraindivíduo constante entre pacientes e utilizar uma variância agrupada.439

  • A variância agrupada é estimada a partir da soma dos quadrados corrigida das estimativas individuais, dividida pelo total de graus de liberdade, produzindo uma estimativa comum da variância intraindivíduo.439


55.4.2 Por que a meta-análise com efeitos aleatórios produz intervalos de confiança mais amplos?

  • Porque ela estima um efeito de tratamento aplicável a uma população mais ampla e “semelhante”, tratando os pacientes estudados como uma amostra aleatória e incorporando a variabilidade entre indivíduos à incerteza do efeito estimado.439


55.4.3 Qual é a principal vantagem da abordagem meta-analítica?

  • A vantagem é responder a uma pergunta inferencial mais relevante, sobre efeitos esperados em populações futuras.439


55.5 Limitações e cuidados


55.5.1 Quais são os principais desafios dos ensaios n-de-1?

  • Baixo poder estatístico quando poucos ciclos são realizados.439

  • Necessidade de períodos de washout para evitar efeito de carry-over.439

  • Interpretação dependente de pressupostos sobre homogeneidade ou heterogeneidade dos efeitos.439

  • Em amostras muito pequenas, pode ser necessário usar variâncias externas ou modelos mistos.439

  • A abordagem meta-analítica assume forte similaridade entre os pacientes estudados e a população-alvo.439



Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

439.
Senn S. The analysis of continuous data from n-of-1 trials using paired cycles: a simple tutorial. Trials. 2024;25(1). doi:10.1186/s13063-024-07964-7
440.
Chatters R, Hawksworth O, Julious S, Cook A. The development of a set of key points to aid clinicians and researchers in designing and conducting n-of-1 trials. Trials. 2024;25(1). doi:10.1186/s13063-024-08261-z
441.
Sarkar D. Lattice: Multivariate Data Visualization with R.; 2008. http://lmdvr.r-forge.r-project.org.