Capítulo 41 Modelagem de sobrevida


41.1 Análise de sobrevida


41.1.1 O que é análise de sobrevida?

  • É um conjunto de métodos estatísticos utilizados para analisar o tempo até a ocorrência de um evento de interesse.347


41.1.2 Quando usar análise de sobrevida?

  • Use quando o desfecho envolve tempo até o evento, nem todos os indivíduos apresentam o evento, há diferentes tempos de seguimento e existem perdas de acompanhamento (censura).347


41.2 Eventos

  • O evento não precisa ser morte — pode ser qualquer desfecho binário que ocorra (ou não) durante o período de observação, tais como: tempo até recidiva de doença; até ocorrência de um sintoma; até falha terapêutica.347


41.2.1 O que caracteriza um “evento” em análise de sobrevida?

  • É um desfecho binário que indica se o evento ocorreu (\(=1\)) ou foi censurado/não ocorreu até o tempo observado (\(=0\)).347


41.3 Dados censurados


41.3.1 O que são dados censurados?

  • São observações em que o evento não ocorreu até o fim do estudo, geralmente porque o participante foi perdido no seguimento ou o estudo terminou antes do evento ocorrer.347

  • Na análise tradicional, esses casos seriam excluídos. Na análise de sobrevida, eles são incorporados ao modelo.347


41.3.2 Quais são os tipos de censura de dados?

  • Censura à direita: O evento não ocorreu até o fim do estudo ou perda de seguimento.347

  • Censura à esquerda: O evento ocorreu antes do início do estudo.347

  • Censura intervalar: O evento ocorreu entre dois pontos de tempo, mas o momento exato é desconhecido.347


41.4 Medidas de associação em análise de sobrevida


41.4.1 O que é a função de sobrevida?

  • A função de sobrevida, \(S(t)\), representa a probabilidade de o evento não ter ocorrido até o tempo \(t\), isto é, \(S(t)=P(T>t)\).347


41.4.2 O que é a função de risco?

  • A função de risco, \(h(t)\), representa a taxa instantânea de ocorrência do evento no tempo \(t\), condicional ao fato de o indivíduo ainda não ter apresentado o evento até esse momento.347


41.4.3 O que é a razão de risco (hazard ratio)?

  • A razão de risco (hazard ratio, \(HR\)) é a razão entre as taxas instantâneas de ocorrência do evento em dois grupos ao longo do tempo.347

  • O hazard ratio compara riscos instantâneos e não probabilidades acumuladas.347

  • \(HR > 1\): O grupo de tratamento tem um risco maior de evento em comparação ao grupo controle.347

  • \(HR = 1\): Não há diferença no risco de evento entre os grupos.347

  • \(HR < 1\): O grupo de tratamento tem um risco menor de evento em comparação ao grupo controle.347


41.4.4 Qual é a diferença entre modelos de Kaplan–Meier e Cox?

  • Kaplan–Meier estima a função de sobrevida sem ajustar para covariáveis.347

  • O teste log-rank compara curvas entre grupos.347

  • O modelo de Cox permite ajustar para múltiplas covariáveis e estima razões de risco ajustadas.347


41.4.5 O que é o tempo médio de sobrevida restrito?

  • O tempo médio de sobrevida restrito (Restricted Mean Survival Time, \(RMST\)) é definido como a área sob a curva de sobrevida até um tempo pré-especificado \(\tau\) (??).348


\[\begin{equation} \label{eq:rmst} \mu(\tau) = \int_0^{\tau} S(t) dt \end{equation}\]


  • Diferentemente do \(HR\), o \(RMST\) não depende da suposição de riscos proporcionais.348

  • O \(RMST\) corresponde à média truncada do tempo até o evento e por isso possui interpretação clínica direta (diferença média de tempo).348

  • Essa diferença corresponde à área entre as curvas de sobrevida até o tempo \(\tau\).348

  • \(RMST\) é robusto quando há violação da suposição de riscos proporcionais.348

  • \(RMST\) é recomendado quando há separação tardia das curvas.348

  • Enquanto o \(HR\) mede uma razão instantânea de riscos, o \(RMST\) mede uma diferença média acumulada de tempo.


41.5 Modelo de Kaplan–Meier


41.5.1 O que é a curva de Kaplan–Meier?

  • A curva de Kaplan–Meier é uma estimativa não paramétrica da função de sobrevida ao longo do tempo, que leva em consideração os dados censurados.347

  • Ela é construída a partir dos tempos de evento e censura, e mostra a probabilidade de sobrevivência em diferentes pontos no tempo.347

  • A curva de Kaplan–Meier é útil para comparar a sobrevida entre grupos e para visualizar a distribuição do tempo até o evento.347


41.5.2 Como interpretar as curvas de Kaplan–Meier?

  • A curva mostra a probabilidade de sobrevivência ao longo do tempo para um grupo específico.347

  • A distância entre as curvas de diferentes grupos pode indicar diferenças na sobrevida.347

  • O teste log-rank pode ser usado para avaliar se as diferenças entre as curvas são estatisticamente significativas.347


Curvas de Kaplan–Meier simuladas para dois grupos (controle e tratamento).

Figura 41.1: Curvas de Kaplan–Meier simuladas para dois grupos (controle e tratamento).


Grupo N Eventos Censuras Mediana (IC 95%)
Controle 103 51 52 29.81 (21.41 – 43.58)
Tratamento 97 47 50 43.47 (34.03 – 64.82)
Teste log-rank: p = 0.02


41.6 Modelos de Cox


41.6.1 O que é o modelo de Cox?

  • O modelo de Cox, ou modelo de riscos proporcionais de Cox, é um modelo de regressão semiparamétrico utilizado para analisar a relação entre o tempo até o evento e um conjunto de covariáveis.347

  • O modelo de Cox assume que a razão de riscos entre os grupos é constante ao longo do tempo (proporcionalidade dos riscos).347


41.6.2 Como interpretar o coeficiente do modelo de Cox?

  • O modelo estima o logaritmo da razão de riscos (\(log(HR)\)).347

  • A exponenciação do coeficiente fornece o \(HR\).347

  • Valores de \(HR < 1\) indicam efeito protetor.347

  • Valores de \(HR > 1\) indicam aumento do risco.347


Curvas ajustadas pelo modelo de Cox para dois grupos (controle e tratamento).

Figura 41.2: Curvas ajustadas pelo modelo de Cox para dois grupos (controle e tratamento).


Characteristic HR IC 95% (inf) IC 95% (sup) p-valor
Grupo


0.021
    Controle

    Tratamento 0.62 0.42, 0.93 0.93
Abbreviations: CI = Confidence Interval, HR = Hazard Ratio





Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

347.
In J, Lee DK. Survival analysis: Part I analysis of time-to-event. Korean Journal of Anesthesiology. 2018;71(3):182–191. doi:10.4097/kja.d.18.00067
348.
Hanada K, Moriya J, Kojima M. Comparison of baseline covariate adjustment methods for restricted mean survival time. Contemporary Clinical Trials. 2024;138:107440. doi:10.1016/j.cct.2024.107440
349.
Therneau TM. A Package for Survival Analysis in R.; 2024. https://CRAN.R-project.org/package=survival.
350.
Kassambara A, Kosinski M, Biecek P. survminer: Drawing Survival Curves using ’ggplot2’.; 2025. doi:10.32614/CRAN.package.survminer