Capítulo 71 Meta-análise
71.1 Características
71.1.1 O que é meta-análise?
Meta-análise é um método estatístico que combina quantitativamente os resultados de múltiplos estudos independentes sobre uma mesma questão de pesquisa, aumentando o poder estatístico e a precisão das estimativas de efeito.573
Meta-análise sintetiza evidências considerando o peso de cada estudo (geralmente inversamente proporcional à variância) e permite avaliar a consistência dos resultados, identificar fontes de heterogeneidade e estimar um efeito global.573
A meta-análise é frequentemente considerada uma das formas mais robustas de evidência científica, pois permite a combinação quantitativa de múltiplos estudos, aumentando a precisão das estimativas de efeito e sintetizando o conhecimento disponível sobre determinada intervenção.480
Por essas razões, a meta-análise deve ser interpretada com cautela, sendo considerada uma ferramenta poderosa de síntese, mas não uma garantia automática de evidência de alta qualidade.480
71.2 Modelos de meta-análise
71.2.1 Quais são os principais modelos de meta-análise?
Modelo de efeitos fixos: assume que todos os estudos avaliam o mesmo efeito verdadeiro, e a variação observada é apenas devido ao erro de amostragem. É adequado quando os estudos são homogêneos e as diferenças entre eles são pequenas.573
Modelo de efeitos aleatórios: assume que os estudos avaliam efeitos verdadeiros diferentes, com uma distribuição normal. É mais apropriado quando há heterogeneidade entre os estudos, pois considera a variação entre eles além do erro de amostragem.573
Modelo de efeitos de rede: estende a meta-análise para comparar múltiplas intervenções simultaneamente, mesmo que não tenham sido comparadas diretamente em estudos. É útil para avaliar a eficácia relativa de várias intervenções.REF?
O pacote metafor574 fornece a função forest para criar figuras tipo forest plot.
O pacote netmeta575 fornece a função netmeta para realizar meta-análise de rede usando método de grafo.
O pacote gemtc576 fornece a função mtc.model para criar modelos de meta-análise de rede.
Figura 71.1: Comparação entre modelos de efeito fixo e aleatório com 10 ensaios clínicos simulados.
71.3 Conversão de Medidas em Meta-análises
71.3.1 O que fazer quando os estudos apresentam resultados com diferentes parâmetros?
Quando os estudos reportam médias e desvios-padrão, os dados podem ser usados diretamente na metanálise.REF?
Quando apresentam mediana e intervalo interquartil (ou mínimo–máximo), existem métodos estatísticos para converter em média e DP.577
Hozo et al. (2005) propuseram fórmulas para estimar a média e o desvio-padrão a partir da mediana, amplitude e tamanho da amostra.577
Wan et al. (2014) aperfeiçoaram essas estimativas, oferecendo métodos mais precisos para converter mediana e IQR em média e DP.578
O pacote metafor574 fornece a função conv.fivenum para converter mínimo/mediana/máximo ou Q1/mediana/Q2 em média e desvio-padrão.
71.4 Interpretação de efeitos em meta-análise
71.4.1 Como avaliar a variação do tamanho do efeito?
O intervalo de predição descreve a variação esperada do tamanho do efeito entre diferentes populações.579
Se o intervalo de predição não inclui a hipótese nula (\(H_{0}\)), espera-se que o tratamento apresente efeito na mesma direção em novas populações.579
O tamanho desse efeito pode variar entre as populações, mesmo quando a hipótese nula não é incluída no intervalo de predição.579
Se o intervalo de predição inclui a hipótese nula (\(H_{0}\)), o tratamento pode ser benéfico em algumas populações e ineficaz ou prejudicial em outras.579
Nessa situação, a estimativa pontual global torna-se menos informativa para a tomada de decisão.579
Recomenda-se investigar quais características das populações explicam essa variação do efeito do tratamento.579
71.4.2 Como avaliar a heterogeneidade entre os estudos?
- A heterogeneidade — variação não-aleatória — no efeito do tratamento entre os estudos incluídos em uma meta-análise pode ser avaliada pelo \(I^{2}\) (71.1).579,580
\[\begin{equation} \tag{71.1} I^{2} = \max \left( 0, \frac{Q - df}{Q} \right) \times 100\% \end{equation}\]
\(I^{2}\) representa qual proporção da variância observada reflete a variância nos efeitos verdadeiros em vez do erro de amostragem.579
\(I^{2}\) mede a proporção da variância total que pode ser atribuída à heterogeneidade entre os estudos incluídos.580
\(I^{2}\) não depende da quantidade de estudos incluídos na meta-análise. Entretanto, \(I^{2}\) aumenta com a quantidade de participantes incluídos nos estudos meta-analisados.580
A heterogeneidade entre estudos é explicada de modo mais confiável utilizando dados de pacientes individuais, uma vez que a direção verdadeira da modificação de efeito não pode ser observada a partir de dados agregados no estudo.581
O pacote psychmeta367 fornece a função ma_d para meta-analisar valores d.
O pacote psychmeta367 fornece a função ma_r para meta-analisar correlações.
71.5 Forest plot
71.5.1 O que é forest plot?
- Um forest plot é uma representação gráfica dos achados de uma meta-análise. Ele resume os resultados de estudos individuais e apresenta uma estimativa combinada do efeito, permitindo interpretação visual da magnitude, direção e significância estatística dos resultados.582
Figura 71.2: Forest plot de uma meta-análise de efeito fixo com 10 ensaios clínicos simulados.
Figura 71.3: Forest plot de uma meta-análise de efeito aleatório com 10 ensaios clínicos simulados.
71.5.2 Quais são as seis colunas básicas que um forest plot geralmente apresenta?
- As seis colunas básicas incluem: estudos incluídos (e subgrupos, se analisados); dados do grupo de intervenção, dados do grupo controle; peso de cada estudo; medida numérica do efeito; representação gráfica do efeito.582
71.5.3 Como diferenciar um desfecho binário de um contínuo em um forest plot?
Em desfechos binários, são mostrados número de eventos e total da amostra, sendo o efeito medido por risk ratio (\(RR\)) ou odds ratio (\(OR\)).582
Em desfechos contínuos, apresentam-se médias, desvios-padrão e tamanhos amostrais, com o efeito medido pela diferença de médias.582
71.5.4 O que representa o ponto central da caixa e o tamanho desta no gráfico?
O ponto central indica a estimativa pontual do efeito (melhor estmativa para o efeito real).582
O tamanho da caixa é proporcional ao peso do estudo na meta-análise, geralmente maior para estudos com amostras maiores.582
71.5.5 Qual é o significado da linha vertical do “nenhum efeito”?
É a linha de referência que indica efeito nulo.582
Para desfechos binários, corresponde ao valor 1 (\(RR\) ou \(OR\) = 1).582
Para desfechos contínuos, corresponde ao valor 0 (diferença de médias = 0).582
Se o intervalo de confiança de um estudo ou do resultado combinado cruza essa linha, o resultado não é estatisticamente significativo.582
71.5.6 Como interpretar o diamante na parte inferior do forest plot?
O diamante representa o efeito combinado dos estudos incluídos.582
O ponto central do diamante é a estimativa global.582
A largura do diamante representa o intervalo de confiança de 95% para o efeito combinado.582
71.5.7 Como a heterogeneidade pode ser avaliada no forest plot?
- A variabilidade nos resultados dos estudos incluídos é avaliada pela sobreposição dos intervalos de confiança dos estudos; pelo teste do qui-quadrado (\(\chi^2\)) e pelo valor de \(I^{2}\).582
71.5.8 Quais são as interpretações usuais para os valores de heterogeneidade?
- \(I^{2}\) de 0% a 40%: pode não ser importante; 30% a 60%: heterogeneidade moderada; 50% a 90%: heterogeneidade substancial; 75% a 100%: heterogeneidade considerável.582
Figura 71.4: Forest plots ilustrativos para faixas usuais de \(I^2\).
71.6 Crosshair
71.6.1 O que é crosshair?
- .583
Figura 71.5: Gráfico de cruzes em espaço de curva característica de operação do receptor (ROC) para 15 estudos simulados de desempenho diagnóstico.
O pacote mada584 fornece a função crosshair para criar um gráfico crosshair583 a partir de dados de verdadeiro-positivo, falso-positivo, verdadeiro-negativo e verdadeiro-positivo de tabelas de confusão 2x2.
71.7 Funnel plot
71.7.1 O que é funnel plot?
É um gráfico de dispersão que relaciona a estimativa de efeito de cada estudo com uma medida de seu tamanho ou precisão (por exemplo, erro-padrão no eixo vertical, em escala invertida).585
Em condições ideais (ausência de viés e heterogeneidade), os estudos se distribuem de forma simétrica, formando um “funil invertido”.585
Figura 71.6: Gráficos de funil simulados com baixa e alta heterogeneidade.
71.7.2 O que é viés de publicação?
- O viés de publicação ocorre quando estudos com resultados não significativos ou contrários à hipótese tendem a não ser publicados, afetando a estimativa final da meta-análise e podendo levar a conclusões incorretas.81
71.7.3 Quais métodos podem ser usados para identificar viés de publicação?
O método mais simples é o funnel plot, que representa a estimativa de efeito de cada estudo em função de sua precisão (\(1/SE\)).586
Na ausência de viés, espera-se uma distribuição simétrica (“forma de funil”). Assimetria pode indicar viés de publicação, heterogeneidade entre estudos ou efeitos de tamanho de estudo (small-study effects).586
Para odds ratios (\(OR\)), a correlação entre \(ln(OR)\) e seu erro padrão pode gerar assimetria mesmo sem viés, por isso recomenda-se, nesses casos, plotar em função do tamanho amostral.587
71.7.4 A assimetria do funnel plot indica sempre viés de publicação?
Viéses de relato (reporting biases), como viés de publicação, viés de linguagem ou de citação.585
Diferenças metodológicas entre estudos pequenos e grandes.585
Heterogeneidade verdadeira (diferença real no efeito conforme o tamanho ou o contexto do estudo).585
Artefatos estatísticos ou mero acaso.585
71.7.5 O que é trim and fill?
O método trim and fill “apara” os estudos que causam assimetria no funnel plot, estima o número de estudos possivelmente ausentes (não publicados) e “preenche” o gráfico com esses estudos simulados, recalculando o efeito combinado.588
O método assume que a assimetria é causada unicamente por viés de publicação, podendo levar a conclusões equivocadas quando há outras causas, como heterogeneidade.588
71.8 Testes de assimetria do funnel plot
71.8.1 O que é o teste de Egger?
É um teste estatístico amplamente utilizado que avalia a relação entre o efeito padronizado (\(efeito/SE\)) e a precisão (\(1/SE\)).586
No entanto, para meta-análises com \(OR\), apresenta taxas de erro tipo I excessivas, especialmente quando o efeito é grande ou há alta heterogeneidade.587
71.8.2 O que é o teste de Peters?
Uma regressão linear ponderada com \(ln(OR)\) como variável dependente e o inverso do tamanho total da amostra como variável independente (modificação do teste de Macaskill).587
Essa abordagem reduz a correlação entre \(ln(OR)\) e seu \(SE\), resultando em taxas de erro tipo I mais adequadas (~10%) independentemente do tamanho do efeito, número de estudos ou heterogeneidade.587
O teste de Peters é preferível ao teste de Egger quando o desfecho é expresso como OR, pois mantém taxas de erro tipo I adequadas e ainda apresenta poder comparável para detectar viés em condições de baixa heterogeneidade.587
Em casos de alta heterogeneidade, o teste de Egger pode apresentar maior poder, mas sua alta taxa de falsos positivos compromete a interpretação.587
71.8.3 Quais são as recomendações para testar a assimetria?
Evitar testes quando há menos de 10 estudos, devido ao baixo poder estatístico.585
Inspecionar visualmente o funnel plot junto com os resultados dos testes.585
Para desfechos contínuos (diferença de médias), o teste de Egger pode ser usado.585
Para desfechos dicotômicos expressos como odds ratio (\(OR\)) com baixa heterogeneidade (\(\tau^2 < 0,1\)), considerar os testes de Harbord, Peters ou Rücker.585
Para desfechos dicotômicos expressos como odds ratio(\(OR\)) com alta heterogeneidade (\(\tau^2 > 0,1\)), o teste de Rücker com transformação \(arcsine\) é mais indicado.585
71.8.4 Como interpretar os resultados de testes de viés de publicação?
Um resultado não significativo não garante ausência de viés.587
Recomenda-se complementar com inspeção visual do funnel plot e considerar métodos adicionais como trim and fill.587,588
Quando há suspeita de viés, discutir as implicações e interpretar o efeito combinado com cautela.587
O pacote psychmeta367 fornece a função plot_funnel para criar figuras tipo funnel plot.
71.9 Diretrizes para redação
71.9.1 Quais são as diretrizes para redação de meta-análises?
Visite a rede Enhancing the QUAlity and Transparency Of health Research (EQUATOR Network) para encontrar diretrizes específicas.
The PRISMA 2020 statement: An updated guideline for reporting systematic reviews.589
Transparent reporting of multivariable prediction models for individual prognosis or diagnosis: checklist for systematic reviews and meta-analyses (TRIPOD-SRMA).571
O pacote metagear590 fornece a função plot_PRISMA para gerar o fluxograma de uma revisão sistemática de acordo com o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses591.
O pacote PRISMA2020250 fornece a função PRISMA_flowdiagram para elaboração do fluxograma de revisões sistemáticas no formato padrão.
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,