Capítulo 17 Dados perdidos e imputados


17.1 Dados perdidos


17.1.1 O que são dados perdidos?

  • Dados perdidos são dados não coletados de um ou mais participantes, para uma ou mais variáveis.184


Tabela 17.1: Simulação de uma amostra (n=10) de um ensaio clínico aleatorizado (dados com perdas aleatórias).
id Grupo Idade Sexo Desfecho (pré) Desfecho (pós)
1 Controle 53 F 57.0 41.3
2 Controle 64 F 45.3 70.0
3 Controle 65 M 39.3 NA
4 Intervenção 66 F 47.8 NA
5 Controle 44 M 39.7 65.7
6 Intervenção NA F 42.7 NA
7 Intervenção 67 M 43.7 64.9
8 Intervenção NA F 33.1 63.3
9 Controle 68 F 58.4 61.6
10 Controle 74 M 51.5 54.3



17.1.2 Qual o problema de um estudo ter dados perdidos?

  • Uma grande quantidade de dados perdidos pode comprometer a integridade científica do estudo, considerando-se que o tamanho da amostra foi estimado para observar um determinado tamanho de efeito mínimo.184

  • Perda de participantes no estudo por dados perdidos pode reduzir o poder estatístico (erro tipo II).184

  • Não existe solução globalmente satisfatória para o problema de dados perdidos.184


17.2 Mecanismos geradores de dados perdidos


17.2.1 Quais são os mecanismos geradores de dados perdidos?

  • Dados perdidos completamente ao acaso (missing completely at random, MCAR), em que os dados perdidos estão distribuídos aleatoriamente nos dados da amostra.185,186


Representação gráfica de dados perdidos completamente ao acaso (MCAR) em um estudo randomizado controlado (RCT).

Figura 17.1: Representação gráfica de dados perdidos completamente ao acaso (MCAR) em um estudo randomizado controlado (RCT).


  • Dados perdidos ao acaso (missing at random, MAR), em que a probabilidade de ocorrência de dados perdidos é relacionada a outras variáveis medidas.185,186
Representação gráfica de dados perdidos ao acaso (MAR) em um estudo randomizado controlado (RCT).

Figura 17.2: Representação gráfica de dados perdidos ao acaso (MAR) em um estudo randomizado controlado (RCT).


  • Dados perdidos não ao acaso (missing not at random, MNAR), em que a probabilidade da ocorrência de dados perdidos é relacionada com a própria variável.185,186


Representação gráfica de dados perdidos não ao acaso (MNAR) em um estudo randomizado controlado (RCT).

Figura 17.3: Representação gráfica de dados perdidos não ao acaso (MNAR) em um estudo randomizado controlado (RCT).


17.2.2 Como identificar o mecanismo gerador de dados perdidos em um banco de dados?

  • Por definição, não é possível avaliar se os dados foram perdidos ao acaso (MAR) ou não (MNAR).185

  • Testes t e regressões logísticas podem ser aplicados para identificar relações entre variáveis com e sem dados perdidos, criando um fator de análise (‘dado perdido’ = 1, ‘dado observado’ = 0).185





17.3 Estratégias para lidar com dados perdidos


17.3.1 Que estratégias utilizar na coleta quando há expectativa de perda?

  • Recomenda-se ampliar o tamanho da amostra com um percentual correspondente a tal estimativa (ex.: 10%), embora ainda não corrija potenciais vieses pela perda.184


17.3.2 Que estratégias utilizar na análise quando há dados perdidos?

  • A análise mais comum compreende apenas os ‘casos completos’, com exclusão de participantes com algum dado perdido nas variáveis do estudo. Em casos de grande quantidade de dados perdidos, pode-se perder muito poder estatístico (erro tipo II elevado).184

  • A análise de dados completos é válida quando pode-se argumentar que a probabilidade de o participante ter dados completos depende apenas das covariáveis e não dos desfechos.186

  • A análise de dados completos é eficiente quando todos os dados perdidos estão no desfecho, ou quando cada participante com dados perdidos nas covariáveis também possui dados perdidos nos desfechos.186




17.3.3 O que reportar em estudos com dados perdidos?

  • Métodos para tratamento de dados perdidos.190

  • Número de participantes com dados perdidos por variável.190

  • Motivos dos dados perdidos.190

  • Padrão de perda.190

  • Diferenças entre os participantes com e sem dados perdidos.190

  • Resultados de análises de sensibilidade.190

  • Implicações na interpretação do resultados.190


17.4 Dados imputados


17.4.1 Quando a imputação de dados é indicada?

  • A análise com imputação de dados pode ser útil quando pode-se argumentar que os dados foram perdidos ao acaso (MAR); quando o desfecho foi observado e os dados perdidos estão nas covariáveis; e variáveis auxiliares (preditoras do desfecho e não dos dados perdidos) estão disponíveis.186

  • Na ocorrência de dados perdidos, a imputação de dados pode ser uma alternativa para manter o erro tipo II estipulado no plano de análise.184


17.4.2 Quais são os métodos de imputação de dados?

  • Imputação multivariada por equações encadeadas (Multivariate Imputation by Chained Equations, MICE)191

  • Correspondência média preditiva (Predictive Mean Matching, PMM).192,193


Impacto de métodos de imputação na distribuição de uma variável contínua com dados perdidos.

Figura 17.4: Impacto de métodos de imputação na distribuição de uma variável contínua com dados perdidos.




Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


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