Capítulo 27 P-valor
27.1 P-valor
27.1.1 O que é o P-valor?
P-valor é a probabilidade, assumindo-se um dado modelo estatístico, de que um efeito calculado a partir dos dados seria igual ou mais extremo do que o seu valor observado.271
P-valor é uma variável aleatória que possui distribuição uniforme quando a hipótese nula (\(H_{0}\)) é verdadeira.272
27.1.2 O que o P-valor não é?
P-valor não representa a probabilidade de que a hipótese nula (\(H_{0}\)) seja verdadeira, nem a probabilidade de que os dados tenham sido produzidos pelo acaso.271
P-valor não mede o tamanho do efeito ou a relevância da sua observação.271
P-valor sozinho não provê informação suficiente sobre a evidência sobre um modelo teórico. A sua interpretação correta requer uma descrição ampla sobre o delineamento, métodos e análises estatísticas aplicados no estudo.271
Evidência estatística de significância não provê informação sobre a magnitude do efeito observado e não necessariamente implica que o efeito é robusto.212,272
27.2 Significância estatística
27.2.1 O que é significância estatística?
- A expressão “significância estatística”273 ou “evidência estatística de significância” sugere apenas que um experimento merece ser repetido, uma vez que um baixo P-valor (calculado a partir dos dados, modelos e demais suposições do estudo) sugere ser improvável que os dados coletados sejam coletados no contexto de que a hipótese nula (\(H_{0}\)) assumida é verdadeira.274
27.3 Interpretação do P-valor
27.3.1 Como interpretar o P-valor?
P-valores abaixo de um nível de significância estatística pré-especificado representam que um experimento merece ser repetido, com a rejeição da hipótese nula (\(H_{0}\)) justificada apenas quando experimentos adicionais frequentemente reportem igualmente resultados positivos (rejeição da hipótese nula (\(H_{0}\)).260
P-valor resulta da coleta e análise de dados, e assim quantifica a plausibilidade dos dados observados sob a hipótese nula (\(H_{0}\)).275
P-valores podem indicar quantitativamente a incompatibilidade entre os dados obtidos e o modelo estatístico especificado a priori (geralmente constituído pela hipótese nula (\(H_{0}\)).271
P-valores menores/maiores do que o nível de significância estatístico pré-estabelecido não devem ser utilizados como única fonte de informação para tomada de decisão em ciência.271
27.3.2 Existe uma crítica lógica à significância estatística?
Sim. Parte da crítica contemporânea argumenta que a significância estatística possui uma base lógica frágil, especialmente quando interpretada como “evidência contra” a hipótese nula.276
O raciocínio subjacente ao P-valor pode ser entendido como uma forma probabilística de “prova por contradição”, cuja validade não se sustenta sob incerteza.276
27.3.3 O que é “prova probabilística por contradição”?
Na lógica clássica, se um evento \(B\) é impossível sob \(A\), então observar \(B\) implica que \(A\) é falso.276
Entretanto, quando substituímos “impossível” por “improvável”, a conclusão não é logicamente válida.276
O fato de \(B\) ser improvável sob \(H_0\) não implica que \(H_0\) seja improvável após observar \(B\).276
27.3.4 Qual é o equívoco central?
Confundir \(P(dados∣H_0)\) com \(P(H_0∣dados)\).276
O P-valor mede a improbabilidade dos dados assumindo \(H_0\) verdadeira.276
Ele não mede a probabilidade de \(H_0\) ser verdadeira.276
27.3.5 O que isso implica para a interpretação do P-valor?
A significância estatística não equivale a “improbabilidade da hipótese nula”.276
A expressão “evidência contra \(H_0\)” conceitualmente mais cautelosa do que “\(H_0\) é improvável” ou “dados são improváveis sob \(H_0\)”, mas ainda repousa em uma estrutura lógica debatida.276
O pacote Superpower277 fornece a função optimal_alpha para calcular e justificar o nível de significância \(\alpha\) por balanço dos erros tipo I e II.
O pacote Superpower277 fornece a função ANOVA_compromise para calcular e justificar o nível de significância \(\alpha\) por balanço dos erros tipo I e II em análise de variância (ANOVA).
27.3.6 Qual a origem do ‘P<0,05’?
A origem do P<0,05 remonta aos trabalhos de R. A. Fisher nas décadas de 1920 e 1930. Fisher introduziu o conceito de P-valor dentro de uma abordagem frequentista de inferência estatística.260
O P<0,05 foi sugerido por Ronald A. Fisher como um limiar prático para indicar que um resultado era “estatisticamente significativo”.260
Para Ronald A. Fisher, a significância estatística não era prova definitiva, mas um sinal de que o resultado merecia investigação adicional. A rejeição da hipótese nula só deveria ocorrer após repetidas observações significativas, e não com base em um único teste.260
Figura 27.1: Visualização espacial de p < 0,05 (5 quadrados aleatórios em 100).
27.4 P-valor de 2ª geração
27.4.1 O que é o P-valor de 2ª geração?
O P-valor de 2ª geração (SGPV) resume a fração das hipóteses apoiadas pelos dados que também pertencem à hipótese nula intervalar (intervalo de equivalência previamente especificado). Quantifica quanto do intervalo de estimativa (p.ex., IC95%) recai dentro da zona de indiferença científica/clinicamente irrelevante.278
Essa abordagem exige declarar a hipótese nula como intervalo (e não um ponto), incorporando o que é considerado “efeito sem relevância prática” segundo o contexto científico (precisão de medida, relevância clínica etc.).278
27.4.2 Como definir a hipótese nula intervalar e \(\delta\)?
Especifique \(H_0\) como um intervalo de equivalência \([H_0^{-}, H_0^{+}]\) que contém efeitos considerados praticamente nulos. Defina \(\delta\) como a meia-largura do intervalo de equivalência (\(\delta = (H_0^{+} - H_0^{-})/2\)).278
A escolha deve ser a priori e justificada por critérios científicos (p.ex., MCID, precisão de medida).278
27.4.3 Como calcular o SGPV?
- Seja \(I=[a,b]\) o intervalo apoiado pelos dados (p.ex., IC 95%) e \(H_0\) o intervalo nulo. O SGPV é (27.1), onde \(|I|\) é a largura do intervalo de estimativa, \(|H_0|\) é a largura do intervalo nulo e \(|I \cap H_0|\) é a largura da sobreposição entre os dois intervalos. O SGPV é restrito ao intervalo \([0,1]\).278
\[\begin{equation} \tag{27.1} p_{\delta} = \frac{|\,I \cap H_0\,|}{|\,I\,|} \times \max\!\left\{ \frac{|\,I\,|}{2|\,H_0\,|}, \, 1 \right\} \end{equation}\]
Quando \(|I|<2|H_0|\), \(p_{\delta}\) é apenas a fração de sobreposição \(|I\cap H_0|/|I|\).278
Quando \(|I|>2|H_0|\), o SGPV reduz-se a \(\tfrac{1}{2}\times \dfrac{|,I\cap H_0,|}{|,H_0,|}\le \tfrac{1}{2}\), sinalizando inconclusão por imprecisão.278
| Cenário | \(a\) | \(b\) | \(H_0^{-}\) | \(H_0^{+}\) | \(\hat\theta\) | \(SE\) | p-valor (bicaudal) | \(p_{\delta}\) | Conclusão (SGPV) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 0.350 | 0.550 | -0.100 | 0.100 | 0.450 | 0.0510 | <0,001 | 0.000 | Apoia alternativas (SGPV=0) |
| 2 | -0.050 | 0.080 | -0.100 | 0.100 | 0.015 | 0.0332 | 0.651 | 1.000 | Equivalência (SGPV=1) |
| 3 | -0.500 | 0.700 | -0.100 | 0.100 | 0.100 | 0.3061 | 0.744 | 0.500 | Inconclusivo (0<pδ<1) < td> </pδ<1)> |
| 4 | 0.050 | 0.250 | -0.100 | 0.100 | 0.150 | 0.0510 | 0.003 | 0.250 | Inconclusivo (0<pδ<1) < td> </pδ<1)> |
| 5 | -0.250 | -0.050 | -0.100 | 0.100 | -0.150 | 0.0510 | 0.003 | 0.250 | Inconclusivo (0<pδ<1) < td> </pδ<1)> |
| 6 | 0.150 | 0.550 | -0.100 | 0.100 | 0.350 | 0.1020 | 0.001 | 0.000 | Apoia alternativas (SGPV=0) |
| 7 | -0.550 | -0.150 | -0.100 | 0.100 | -0.350 | 0.1020 | 0.001 | 0.000 | Apoia alternativas (SGPV=0) |
27.4.4 Como interpretar o SGPV?
\(p_{\delta}=0\): dados apoiam apenas hipóteses alternativas relevantes (IC totalmente fora da equivalência).278
\(p_{\delta}=1\): dados apoiam apenas hipóteses nulas (equivalentes) (IC totalmente dentro da equivalência).278 \(0<p_{\delta}<1\): inconclusivo; o valor expressa o grau de inconclusão. Em particular, \(p_{\delta}=\tfrac{1}{2}\) indica inconclusão estrita.278
O SGPV é descritivo (não é probabilidade posterior de \(H_0\)).278
27.4.5 Relação com testes de equivalência
Tanto SGPV quanto Dois Testes Unicaudais (Two One-Sided Tests, TOST) comparam o IC com os limites de equivalência. Se o IC \((1-2\alpha)\) (p.ex., 90% quando \(\alpha=0{,}05\)) cai inteiro dentro dos limites, TOST conclui equivalência — situação análoga a \(p_{\delta}=1\).279
Com ICs simétricos, há pontos de ancoragem em que as estatísticas coincidem: quando \(p_{\text{TOST}}=0{,}5\), então \(\mathrm{SGPV}=0{,}5\); quando o IC toca o limite mas fica inteiramente dentro (fronteira), \(p_{\text{TOST}}=0{,}025\) e \(\mathrm{SGPV}=1\); quando o IC fica inteiramente fora tocando o limite, \(p_{\text{TOST}}=0{,}975\) e \(\mathrm{SGPV}=0\).279
Em ICs assimétricos ou quando \(|I|>2|H_0|\), o SGPV fica difícil de interpretar quando \(0<p_{\delta}<1\); nesses cenários, o TOST costuma diferenciar melhor os resultados.279
27.4.6 Propriedades frequenciais e múltiplas comparações
Usando ICs \(100(1-\alpha)%\), sob qualquer hipótese em \(H_0\), \(\Pr(p_{\delta}=0)\le \alpha\) e \(\to 0\) com o aumento de \(n\); fora de \(H_0\), \(\Pr(p_{\delta}=0)\to 1\) quando \(n\) cresce.278
O SGPV mitiga naturalmente inflação de erro Tipo I em muitas comparações e prioriza relevância científica (não requer ajustes ad hoc).278
27.5 Distribuição de confiança
27.5.1 O que é distribuição de confiança?
- Distribuição de confiança é uma representação contínua da evidência inferencial sobre um parâmetro de interesse. Ela mostra, para cada valor possível do tamanho do efeito, o nível de confiança associado.REF?
Figura 27.2: Distribuição de confiança para o tamanho do efeito estimado.
27.5.2 Como interpretar a distribuição de confiança?
Defina \(H_0\) intervalar e \(\delta\) a priori com justificativa científica.278,279
Reporte a estimativa pontual, o intervalo de confiança, os limites de equivalência e \(p_{\delta}\); interprete \(p_{\delta}\in{0,1}\) de forma dicotômica e \(0<p_{\delta}<1\) como inconclusivo; quando necessário, complemente com TOST.278,279
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,