Capítulo 25 P-valor


25.1 P-valor


25.1.1 O que é o P-valor?

  • P-valor é a probabilidade, assumindo-se um dado modelo estatístico, de que um efeito calculado a partir dos dados seria igual ou mais extremo do que o seu valor observado.272

  • P-valor é uma variável aleatória que possui distribuição uniforme quando a hipótese nula (\(H_{0}\)) é verdadeira.273


25.1.2 O que o P-valor não é?

  • P-valor não representa a probabilidade de que a hipótese nula (\(H_{0}\)) seja verdadeira, nem a probabilidade de que os dados tenham sido produzidos pelo acaso.272

  • P-valor não mede o tamanho do efeito ou a relevância da sua observação.272

  • P-valor sozinho não provê informação suficiente sobre a evidência sobre um modelo teórico. A sua interpretação correta requer uma descrição ampla sobre o delineamento, métodos e análises estatísticas aplicados no estudo.272

  • Evidência estatística de significância não provê informação sobre a magnitude do efeito observado e não necessariamente implica que o efeito é robusto.223,273


25.2 Significância estatística


25.2.1 O que é significância estatística?

  • A expressão “significância estatística”274 ou “evidência estatística de significância” sugere apenas que um experimento merece ser repetido, uma vez que um baixo P-valor (calculado a partir dos dados, modelos e demais suposições do estudo) sugere ser improvável que os dados coletados sejam coletados no contexto de que a hipótese nula (\(H_{0}\)) assumida é verdadeira.275


25.3 Interpretação do P-valor


25.3.1 Como interpretar o P-valor?

  • P-valores abaixo de um nível de significância estatística pré-especificado representam que um experimento merece ser repetido, com a rejeição da hipótese nula (\(H_{0}\)) justificada apenas quando experimentos adicionais frequentemente reportem igualmente resultados positivos (rejeição da hipótese nula (\(H_{0}\)).258

  • P-valor resulta da coleta e análise de dados, e assim quantifica a plausibilidade dos dados observados sob a hipótese nula (\(H_{0}\)).276

  • P-valores podem indicar quantitativamente a incompatibilidade entre os dados obtidos e o modelo estatístico especificado a priori (geralmente constituído pela hipótese nula (\(H_{0}\)).272

  • P-valores menores/maiores do que o nível de significância estatístico pré-estabelecido não devem ser utilizados como única fonte de informação para tomada de decisão em ciência.272


25.3.2 Existe uma crítica lógica à significância estatística?

  • Sim. Parte da crítica contemporânea argumenta que a significância estatística possui uma base lógica frágil, especialmente quando interpretada como “evidência contra” a hipótese nula.277

  • O raciocínio subjacente ao P-valor pode ser entendido como uma forma probabilística de “prova por contradição”, cuja validade não se sustenta sob incerteza.277


25.3.3 O que é “prova probabilística por contradição”?

  • Na lógica clássica, se um evento \(B\) é impossível sob \(A\), então observar \(B\) implica que \(A\) é falso.277

  • Entretanto, quando substituímos “impossível” por “improvável”, a conclusão não é logicamente válida.277

  • O fato de \(B\) ser improvável sob \(H_0\) não implica que \(H_0\) seja improvável após observar \(B\).277


25.3.4 Qual é o equívoco central?

  • Confundir \(P(dados \mid H_0)\) com \(P(H_0 \mid dados)\).277

  • O P-valor mede a improbabilidade dos dados assumindo \(H_0\) verdadeira.277

  • Ele não mede a probabilidade de \(H_0\) ser verdadeira.277


25.3.5 O que isso implica para a interpretação do P-valor?

  • A significância estatística não equivale a “improbabilidade da hipótese nula”.277

  • A expressão “evidência contra \(H_0\)” conceitualmente mais cautelosa do que “\(H_0\) é improvável” ou “dados são improváveis sob \(H_0\)”, mas ainda repousa em uma estrutura lógica debatida.277




25.3.6 Qual a origem do ‘P<0,05’?

  • A origem do P<0,05 remonta aos trabalhos de R. A. Fisher nas décadas de 1920 e 1930. Fisher introduziu o conceito de P-valor dentro de uma abordagem frequentista de inferência estatística.258

  • O P<0,05 foi sugerido por Ronald A. Fisher como um limiar prático para indicar que um resultado era “estatisticamente significativo”.258

  • Para Ronald A. Fisher, a significância estatística não era prova definitiva, mas um sinal de que o resultado merecia investigação adicional. A rejeição da hipótese nula só deveria ocorrer após repetidas observações significativas, e não com base em um único teste.258


Visualização espacial de p < 0,05 (5 quadrados aleatórios em 100).

Figura 25.1: Visualização espacial de p < 0,05 (5 quadrados aleatórios em 100).


25.3.7 Quais são os complementos ou alternativas ao P-valor?

  • Intervalos de confiança, credibilidade ou predição.272

  • Razão de verossimilhança.272

  • Métodos Bayesianos, fator Bayes.272


25.4 P-valor de 2ª geração


25.4.1 O que é o P-valor de 2ª geração?

  • O P-valor de 2ª geração (SGPV) resume a fração das hipóteses apoiadas pelos dados que também pertencem à hipótese nula intervalar (intervalo de equivalência previamente especificado). Quantifica quanto do intervalo de estimativa (p.ex., IC95%) recai dentro da zona de indiferença científica/clinicamente irrelevante.279

  • Essa abordagem exige declarar a hipótese nula como intervalo (e não um ponto), incorporando o que é considerado “efeito sem relevância prática” segundo o contexto científico (precisão de medida, relevância clínica etc.).279


25.4.2 Como definir a hipótese nula intervalar e \(\delta\)?

  • Especifique \(H_0\) como um intervalo de equivalência \([H_0^{-}, H_0^{+}]\) que contém efeitos considerados praticamente nulos. Defina \(\delta\) como a meia-largura do intervalo de equivalência (\(\delta = (H_0^{+} - H_0^{-})/2\)).279

  • A escolha deve ser a priori e justificada por critérios científicos (p.ex., MCID, precisão de medida).279


25.4.3 Como calcular o SGPV?

  • Seja \(I=[a,b]\) o intervalo apoiado pelos dados (p.ex., IC 95%) e \(H_0\) o intervalo nulo. O SGPV é (25.1), onde \(|I|\) é a largura do intervalo de estimativa, \(|H_0|\) é a largura do intervalo nulo e \(|I \cap H_0|\) é a largura da sobreposição entre os dois intervalos. O SGPV é restrito ao intervalo \([0,1]\).279


\[\begin{equation} \tag{25.1} p_{\delta} = \frac{|\,I \cap H_0\,|}{|\,I\,|} \times \max\!\left\{ \frac{|\,I\,|}{2|\,H_0\,|}, \, 1 \right\} \end{equation}\]


  • Quando \(|I|<2|H_0|\), \(p_{\delta}\) é apenas a fração de sobreposição \(|I\cap H_0|/|I|\).279

  • Quando \(|I|>2|H_0|\), o SGPV reduz-se a \(\tfrac{1}{2}\times \dfrac{|,I\cap H_0,|}{|,H_0,|}\le \tfrac{1}{2}\), sinalizando inconclusão por imprecisão.279


Tabela 25.1: Comparação entre p-valor (bicaudal, inferido do IC95%) e SGPV (\(p_{\delta}\)) nos cenários simulados.
Cenário \(a\) \(b\) \(H_0^{-}\) \(H_0^{+}\) \(\hat\theta\) \(SE\) p-valor (bicaudal) \(p_{\delta}\) Conclusão (SGPV)
1 0.350 0.550 -0.100 0.100 0.450 0.0510 <0,001 0.000 Apoia alternativas (SGPV=0)
2 -0.050 0.080 -0.100 0.100 0.015 0.0332 0.651 1.000 Equivalência (SGPV=1)
3 -0.500 0.700 -0.100 0.100 0.100 0.3061 0.744 0.500 Inconclusivo (0<pδ<1) < td> </pδ<1)>
4 0.050 0.250 -0.100 0.100 0.150 0.0510 0.003 0.250 Inconclusivo (0<pδ<1) < td> </pδ<1)>
5 -0.250 -0.050 -0.100 0.100 -0.150 0.0510 0.003 0.250 Inconclusivo (0<pδ<1) < td> </pδ<1)>
6 0.150 0.550 -0.100 0.100 0.350 0.1020 0.001 0.000 Apoia alternativas (SGPV=0)
7 -0.550 -0.150 -0.100 0.100 -0.350 0.1020 0.001 0.000 Apoia alternativas (SGPV=0)


25.4.4 Como interpretar o SGPV?

  • \(p_{\delta}=0\): dados apoiam apenas hipóteses alternativas relevantes (IC totalmente fora da equivalência).279

  • \(p_{\delta}=1\): dados apoiam apenas hipóteses nulas (equivalentes) (IC totalmente dentro da equivalência).279 \(0<p_{\delta}<1\): inconclusivo; o valor expressa o grau de inconclusão. Em particular, \(p_{\delta}=\tfrac{1}{2}\) indica inconclusão estrita.279

  • O SGPV é descritivo (não é probabilidade posterior de \(H_0\)).279


25.4.5 Relação com testes de equivalência

  • Tanto SGPV quanto Dois Testes Unicaudais (Two One-Sided Tests, TOST) comparam o IC com os limites de equivalência. Se o IC \((1-2\alpha)\) (p.ex., 90% quando \(\alpha=0{,}05\)) cai inteiro dentro dos limites, TOST conclui equivalência — situação análoga a \(p_{\delta}=1\).280

  • Com ICs simétricos, há pontos de ancoragem em que as estatísticas coincidem: quando \(p_{\text{TOST}}=0{,}5\), então \(\mathrm{SGPV}=0{,}5\); quando o IC toca o limite mas fica inteiramente dentro (fronteira), \(p_{\text{TOST}}=0{,}025\) e \(\mathrm{SGPV}=1\); quando o IC fica inteiramente fora tocando o limite, \(p_{\text{TOST}}=0{,}975\) e \(\mathrm{SGPV}=0\).280

  • Em ICs assimétricos ou quando \(|I|>2|H_0|\), o SGPV fica difícil de interpretar quando \(0<p_{\delta}<1\); nesses cenários, o TOST costuma diferenciar melhor os resultados.280


25.4.6 Propriedades frequenciais e múltiplas comparações

  • Usando ICs \(100(1-\alpha)%\), sob qualquer hipótese em \(H_0\), \(\Pr(p_{\delta}=0)\le \alpha\) e \(\to 0\) com o aumento de \(n\); fora de \(H_0\), \(\Pr(p_{\delta}=0)\to 1\) quando \(n\) cresce.279

  • O SGPV mitiga naturalmente inflação de erro Tipo I em muitas comparações e prioriza relevância científica (não requer ajustes ad hoc).279


25.5 Distribuição de confiança

25.5.1 O que é distribuição de confiança?

  • Distribuição de confiança é uma representação contínua da evidência inferencial sobre um parâmetro de interesse. Ela mostra, para cada valor possível do tamanho do efeito, o nível de confiança associado.REF?


Distribuição de confiança para o tamanho do efeito estimado.

Figura 25.2: Distribuição de confiança para o tamanho do efeito estimado.


25.5.2 Como interpretar a distribuição de confiança?

  • Defina \(H_0\) intervalar e \(\delta\) a priori com justificativa científica.279,280

  • Reporte a estimativa pontual, o intervalo de confiança, os limites de equivalência e \(p_{\delta}\); interprete \(p_{\delta}\in{0,1}\) de forma dicotômica e \(0<p_{\delta}<1\) como inconclusivo; quando necessário, complemente com TOST.279,280



Citar como:
Ferreira, Arthur de Sá. Ciência com R: Perguntas e respostas para pesquisadores e analistas de dados. Rio de Janeiro: 1a edição,


Referências

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